Discute-se qual o sentido mais antigo da palavra ratio. Liga-se provavelmente a ratus, particípio de reor (crer, pensar), e parece ter sobretudo significado cálculo e relação antes da época clássica. Ver Albert YON, "Ratio e as palavras da família de reor". Société linguistique de Paris, 1933. Com Lucrécio e Cícero, que a fazem entrar na linguagem filosófica, ela inclui os sentidos de διάνοια, de νόησις e sobre tudo de λόγος, que já se empregava ela também nas acepções mais variadas.

I. Enquanto faculdade:

A. Faculdade de raciocinar discursivamente, de combinar conceitos e proposições (διάνοια, λόγος). Ver MEILLET, Histoire de la langue latine, principalmente a p. 214.

A Razão é quase universalmente considerada, neste sentido, como o próprio do homem, ζῷον λογικόν. "Etenin ratio, qua una praestamus belluis, per quam... argumentamur, refellimus, disserimus, conficimus aliquid, concludimus, certe est communis, doctrina differens, discendi quidem facultate par." CÍCERO, De legibus, I, 10; 30. "Rationale est differentia animalis et Deo non convenit nec Angelis." S. TOMÁS DE AQUINO, in lib. III Sententiarum, 25, qu. 1, art. 1, § 4. A ratio opõe-se, segundo ele, a intellectus, faculdade de conhecer superior e intuitiva, ainda que ambas tenham uma raiz comum na natureza da alma: "Etsi intellectus at ratio non sint diversae potentiae, tamen denominantur ex diversis actibus. Intellectus enim nomem sumitur ab intima penetratione veritatis, nomem autem rationis ab inquisitione et discursu."¹ Summa theol., II, 2, 49, 5 ad 3.

Bossuet toma frequentemente a palavra neste sentido, ainda que lhe acrescente muito do sentido B (razão normativa). Na verdade, razão, para ele, designa sobretudo aquilo que ultrapassa os sentidos (ver adiante).

Este sentido tradicional persiste em alguns modernos. "Die Begriffe sind das Eigenthum des Menschen dessen ihn von allen Thieren unterscheidende Fähigkeit zu denselben von jeher Vernunft genannt worden ist."² SCHOPENHAUER, Die Welf; I, § 3. Diz-se ainda neste sentido razão racionante.

Encontramo-la também na expressão ser de razão, entidade fictícia criada pelo espírito para as necessidades do discurso. (COURNOT aplicou essa expressão às "entidades fundadas sobre a natureza e sobre a razão das coisas", por oposição às "entidades artificiais que são apenas signos lógicos". Essai, cap. XI, § 159. Mas este uso é excepcional.)

B. Faculdade "de bem julgar" (DESCARTES, Método, I, 1), quer dizer, de discernir o bem e o mal, o verdadeiro e o falso (ou mesmo o belo e o feio) através de um sentimento interior espontâneo e imediato. "Enquanto o entendimento inventa e penetra, chama-se espírito; enquanto ajuíza e se dirige para o verdadeiro e para o bem, chama-se razão e juízo... A razão enquanto nos desvia do verdadeiro mal do homem, que é o pecado, chama-se consciência." BOSSUET, Conhecimento de Deus e de si próprio, cap. I, § 7. (Sobre a razão juiz da beleza e da ordem, cf. ibid., 8.) "Nunca devemos dar total consentimento senão às proposições que parecem tão evidentemente verdadeiras que não possamos recusá-las sem sentir uma pena interior e uma reprovação secreta da razão." MALEBRANCHE, Recherche de la vérité, I, cap. II, 4.

A razão, neste sentido, opõe-se quer à loucura, quer à paixão; mas nesta oposição acrescenta-se por vezes alguma coisa do sentido A: o homem apaixonado raciocina mal, contrariamente às leis lógicas; e do mesmo modo o louco, pelo menos em certos casos.

C. Conhecimento natural, enquanto oposto ao conhecimento revelado, objeto da fé. "O objeto da fé é a verdade que Deus revelou de uma maneira extraordinária; ... a razão é o encadeamento das verdades; mas particularmente, quando comparada com a fé, daquelas que o espírito humano pode atingir naturalmente, sem ser ajudado pelas luzes da fé. Esta definição da razão (quer dizer, da reta e verdadeira razão) surpreendeu algumas pessoas acostumadas a declamar contra a razão tomada num sentido vago". LEIBNIZ, Teodicéia, Discurso da conformidade da fé com a razão, § 1.

Ele acha, além disso, que este sentido não difere em nada do sentido D, quer dizer, da razão enquanto distinta da experiência, porque, diz ele, "pode-se comparar a fé com a experiência, uma vez que a fé, quanto aos motivos que a verificam, depende da experiência daqueles que viveram os milagres sobre os quais a revelação está fundada, e da tradição digna de crença que os fez chegar até nós." Ibid.

D. Sistema de princípios a priori cuja verdade não depende da experiência, que podem ser logicamente formulados e dos quais temos uma consciência refletida. "O conhecimento das verdades necessárias e eternas é o que nos distingue dos simples animais e nos faz ter a Razão e as Ciências, elevando-nos ao conhecimento de nós próprios e de Deus." LEIBNIZ, Monadologia, 29. "A Razão pura e simples, distinta da experiência, só tem a ver com verdades independentes dos sentidos." Id., Teodicéia, Dis. da la conformité, 1.

Este sentido, favorecido, aliás, pelo kantismo, foi desde há quase um século o mais usual no nosso ensino clássico: "A inteligência humana não foi colocada perante o mundo com a faculdade de o conhecer totalmente acabada: trazia também em si as noções primeiras indispensáveis para o compreender... Estas noções inatas compõem aquilo a que se chama a razão." JOUFFROY, Nouveaux mélanges, Da organização das ciências filosóficas, p. 6. "A existência da razão foi contestada por toda uma escola de filósofos, a escola empirista. A tese geral do empirismo é que a inteligência humana deriva totalmente da experiência." BOIRAC, Cours de philosophie (18ª ed., p. 110).

E. Mais especialmente, faculdade de conhecer diretamente o real e o absoluto, por oposição àquilo que é aparente ou acidental; e, por vezes (por consequência da identidade entre o pensamento e o seu objeto), o próprio absoluto. "Nós recebemos sem cessar e a todo o momento uma razão superior a nós assim como respiramos sem cessar o ar que nos é um corpo estranho." FÉNELON, Tratado da exist. de Deus, I, 56. "Cada um sente em si uma razão limitada e subalterna... que só se corrige ao voltar a cair sob o jugo de uma outra razão superior, universal e imutável." Ibid., 57. "Onde está ela, essa razão suprema? Não será ela o Deus que eu procuro?" Ibid., 60. "É o ser infinitamente perfeito que se torna imediatamente presente a mim, quando o concebo, e é ele próprio a ideia que dele tenho." Ibid., II, 1.

Este sentido, rejeitado por KANT, que julga tal conhecimento impossível, foi retomado com algumas modificações pelos seus sucessores, particularmente por Schelling. Ver ?Razão pura e as observações.

"Chega-se assim a um juízo purificado de qualquer reflexão, à intuição imediata, filha legítima da energia natural do pensamento, tal como a inspiração do poeta e o instinto do herói... A reflexão é o teatro dos combates que a razão mantém consigo própria, com a dúvida, o sofisma e o erro. Mas, acima da reflexão, existe uma esfera de luz e de paz, na qual a razão apercebe a verdade sem retornar a si, apenas porque a verdade é a verdade, e porque Deus fez a razão para a aperceber, tal como fez os olhos para ver e os ouvidos para ouvir." COUSIN, Du vrai, du beau et du bien, 3ª lição, p. 61.

Cf. ?Impessoal (Teoria da Razão).

II. *Enquanto objeto de conhecimento:

F. Relação. "Razão média e extrema. Razão de uma progressão." "Ex ipsa ratione quam primum [numerum] ad secundum habere uno intuitu vidimus, ipsum quartum concludimus." ESPINOSA, Ética, II, 40, schol. 2. "A razão exprime como um número está contido num outro, ou como o contém... Podemos representá-la por uma fração em que um número será o numerador e o outro o denominador." CONDILLAC, Linguagem dos cálculos, liv. I, cap. XII. (Cf. ibid., ch. IX.)

G. Princípio de explicação, no sentido teórico; razão de ser: o que dá conta de um efeito. "Seja um conjunto qualquer de dados quaisquer; assim que eles estejam efetivamente ligados, existe uma razão, um porque, um intermediário que explica, demonstra e torna a sua ligação necessária." TAINE, De l'intelligence, II, 437. "Uma destas faculdades (pelas quais o homem ultrapassa o animal) é a de conceber a razão das coisas." COURNOT, Essai, ch. II, § 13. Ele opõe a razão, neste sentido, quer à simples causalidade eficiente, quer à demonstração lógica que força o assentimento, mas sem esclarecer o espírito.

H. No sentido normativo, causa ou motivo legítimo, justificação (cf. o sentido B). "O coração tem as suas razões..." "Não sem razão." Por conseguinte, argumento destinado a provar que se tem razão (mesmo se esse argumento não for bom). "Apontar falsas razões." "A razão do mais forte é sempre a melhor."

?Razão suficiente, ver as observações.

--

Crítica

A multiplicidade dos sentidos da palavra razão (sobretudo enquanto faculdade) foi frequentemente ressaltado pelos filósofos. LOCKE (Ensaio, liv. IV, ch. XVII: "Da razão") salienta que esta designa: quer o conjunto dos princípios claros e verdadeiros, quer o fato de se tirar deles conclusões que deles resultam incontestavelmente, quer a causa, e especialmente a causa final, quer, por fim, a diferença específica do homem que o separa dos animais. É neste último sentido que ele se detém e parece entendê-la propriamente como a atividade intelectual no que ela tem de criativo, enquanto descobre provas e as ordena de maneira a tornar manifesto o seu valor demonstrativo. LEIBNIZ parece aprovar esta classificação, e a reduz a dois termos essenciais, a invenção e o juízo (Novos ensaios, ibid.), mas ressalta ainda, tal como na Monadologia, o caráter reflexivo do conhecimento dos próprios pela razão.

COURNOT (Essai, cap. II) assinala em primeiro lugar a ambiguidade da "razão subjetiva" (razão do homem) e da "razão objetiva" (razão das coisas); vê aí uma marca "da impotência em que estamos de conceber e explicar esta relação entre o objeto e o sujeito... que constitui o conhecimento, assim como da tendência do espírito para disfarçar essa impotência deixando flutuar a imaginação sobre não sei quais seres mistos ou intermediários que participariam da natureza do sujeito e da do objeto". Acrescenta que a palavra razão "mesmo quando é utilizada para designar positivamente uma faculdade do espírito humano" comporta ainda muitos equívocos. Ela designa: 1º o poder de raciocinar; 2º o poder de formar ideias gerais (CONDILLAC); 3º a faculdade superior que faz a síntese dos conceitos do entendimento tal como este faz a síntese dos elementos sensíveis (KANT); 4º a faculdade de aprender as verdades absolutas e necessárias, a ideia de Deus, a do dever e outras do mesmo gênero (LEIBNIZ). Admite todas estas definições, mas vê nelas usos "arbitrários" da palavra razão, que julga suscetível de um sentido diferente e melhor. Ao empregas a palavra razão no sentido subjetivo, conclui ele, pretenderemos designar principalmente a faculdade de apreender a razão das coisas, ou a ordem segundo a qual os fatos, as leis, as conexões, objetos do nosso conhecimento, se encadeiam e procedem uns dos outros (ver acima o sentido G).

Por mais filosófica que seja essa concepção, parece constituir, ela também, uma restrição arbitrária do sentido desta palavra. Haverá para cada caso uma e uma só razão das coisas que satisfaça o espírito? Apreender-se-á "a razão" de um teorema através de uma das suas demonstrações, com exclusão de todas as outras? Parece difícil admiti-lo.

A ideia central de razão parece continuar a ser a de um acordo, de uma comunidade ideal: entre as coisas e o espírito, por um lado, e, por outro, entre os diversos espíritos. Seria difícil, no estado atual dos nossos conhecimentos, conceber esta ordem como uma realidade fixa e imutável. Por outro lado, é contudo uma função da razão, e das mais essenciais, representar uma autoridade firme, que escape às controvérsias e aos movimentos individuais de pensamento julgando entre os homens e decidindo quem está errado ou quem tem razão, tanto na ordem prática assim como na ordem intelectual (sentido B). É preciso, portanto, reconhecer nela simultaneamente: 1º um esforço numa direção certa, que podemos talvez determinar a posteriori através do estudo das suas produções, mas um esforço cujo sucesso contém uma quota de compromisso e de adaptação à matéria do conhecimento; 2º um corpo de princípios estabelecidos e formulados (razão no sentido D) e cuja transformação é suficientemente lenta para que relativamente aos indivíduos e às circunstâncias de vida possam ser considerados como "verdades eternas". E isto tanto mais legitimamente quanto a razão, enquanto esforço, possui uma direção bem determinada, não variando esse corpo de princípios de uma maneira qualquer; substituir-se-ão uns aos outros, não se destruindo, mas absorvendo-se. Designar diferentemente estes dois aspectos da razão parece-me necessário se se quiser esclarecer e precisar o sentido desta palavra. Poder-se-iam adotar, para tanto, as duas expressões de razão constituinte e de razão constituída.

Sobre a ideia geral de razão, ver BOUTROUX (discutindo as teses de R. BERTHELOT sobre Hegel), no Bulletin da Sociedade Francesa de Filosofia, abril de 1907, pp. 140 ss. PARODI, Traditionalisme et démocratie, pp. 248-250; BRUNSCHVICG, As funções da razão (Bull. da Soc. Fr. de Filos., junho de 1910). A LALANDE, Razão constituinte e razão constituída, curso público de 1909-1910. (As aulas de abertura e de encerramento aparecem na Revue des cours et conférences de abril de 1925.)

Rad. int.: A. Intelekt (ver ?Entendimento); B. D. E. Racion (Konstituant, konstituit); C. Intelig.; F. Raport; G. Motiv; H. Justifik.


Observações

A ordem primitivamente seguida entre os sentidos da palavra razão foi um pouco modificada a partir das observações de vários membros da Sociedade, particularmente M. Drouin, a quem devo igualmente alguns complementos úteis. Preferimos separar do resto e reunir num só artigo, sob a rubrica Razão pura, aquilo que diz respeito ao emprego desta palavra em Kant.

Etimologia. Divisão dos sentidos — Deve ter havido no latim uma raiz rat (idêntica talvez à raiz art, de ars, artus, de ἀριθμός, etc.) que exprimia algo de adaptado, de composto, e de estável em consequência dessa ordem. Daí o particípio ratus, assegurado, fixo, quer falando de uma coisa quer falando de uma pessoa: daí ratis, jangada, conjunto de peças de madeira, e ratio, sistema de ideias ligadas entre si, conta, raciocínio. (J. Lachelier)

O sentido original parece ser aquele que a velha expressão "livro de razão" sugere, e que significa livro de contas e verificação pormenorizadas das receitas e despesas, registro discursivo de todo o movimento de uma casa¹. A partir desta significação primeira, o termo evoluiu em duas direções diferentes, que levaram não só a diferenciar, mas também a opor as acepções que ela comporta na linguagem filosófica: daí as confusões contra as quais é essencial precavermo-nos. Razão, consoante encaremos sobretudo quer o caráter analítico das suas operações, quer a clareza certa das suas asserções, aplica-se umas vezes à faculdade essencialmente discursiva que, capaz de organizar experiências ou provas, estabelece as suas demonstrações; outras vezes à faculdade de afirmar o absoluto, de conhecer e, por assim dizer, de captar o ser tal como ele é, e de fornecer os princípios, de alcançar as verdades necessárias e suficientes ao pesamento e à vida. No primeiro sentido, a razão é um simples instrumento ("um instrumento universal", dizia Descartes), para servir, ajudar ou imitar a obra de uma faculdade mais elevada de intuição; no segundo sentido, desempenha o papel principal; pretende, mais ou menos deliberadamente, atribuir um valor realista ao trabalho discursivo do espírito, e restituir o real com a ajuda dos fragmentos artificiais da análise. (M. Blondel)

As diversas definições da Razão, enquanto "faculdade", não poderão ser simplificadas e agrupadas à volta de uma ideia mais central? A Razão seria a própria atividade do espírito, considerada no que ela tem de essencial, ou, melhor dizendo, aquilo que dirige essa atividade para o seu acabamento e perfeição. Poder-se-iam distinguir então duas funções da razão, uma vez que existem duas manifestações da atividade do espírito: na ordem da especulação, a sistematização do conhecimento; na ordem da prática, a sistematização da conduta. (A. Landry)

Por fim, vários membros da Sociedade perguntaram se não conviria, antes, situar razão historicamente, no sentido de relação, de princípio explicativo, etc., antes dos diversos sentidos de razão enquanto faculdade; porque, dizia-se, este sentido é mais antigo. É provável, com efeito, que no latim seja assim. Porém, desde a época de Cícero e de Lucrécio, ratio, no sentido de faculdade, é muito usual. E, por consequência, em francês, as duas acepções existem a igual título desde a origem da linguagem filosófica. Não se pode esquecer que a nossa palavra Razão não transcreve unicamente o latim Ratio, mas traduz λόγος e mesmo νοῦς. Julguei, portanto, poder manter em primeira linha o sentido que ocupa hoje o lugar mais importante no uso filosófico. (A. L.)

Sobre a Razão, a Superstição e a FéMentré assinala o importante lugar ocupado por esta oposição no Tractatus Theologico-politicus de ESPINOSA. "Videmus eos omni superstitionis generi addictissimos esse, qui incerta sine modo cupiunt... et Rationem, quia ad vana, quae cupiunt, certam viam ostendere nequit, caecam appellare humanamque sapientiam vanam, et contra imaginationis deliria, somnia, et pueriles ineptias divina responsa credere, imo Deum sapientes aversari... Cum haec ergo animo perpenderem, scilicet Lumen Naturale, non tantum contemni, sed a multis tanquam impietatis fontem damnari... sedulo statui, Scripturam de novo integro et libero animo examinare et nihil de eadem affirmare, nihilque, tanquam ejus doctrinam admittere, quod ab eadem clarissime nos edocerer." Prefácio, 1 e 5.

Sobre o sentido kantiano de Razão (Vernunft) — Parece ser o νοῦς de Platão e o intellectus de São Tomás que Kant e os seus sucessores entenderam restaurar sob o nome de Vernunft, mas sob formas e com precisões inteiramente novas.

Todos esses filósofos parecem igualmente ter tido a ideia de um real, de um absoluto de cada coisa, que é, sob um véu mais ou menos difícil de levantar, o ser verdadeiro e, por conseguinte, o verdadeiro objeto do nosso conhecimento. Porém Kant, mais do que qualquer outro, tornou esse véu espesso, dizendo que ele era nada menos do que o espaço e, por trás do espaço, o tempo, sem os quais não possuímos intuição e com os quais tudo o que nos é dado na intuição não é senão aparência, fundada sem dúvida, porém fundada de uma maneira incompreensível, no único que é real.

Ninguém foi mais impiedoso do que Kant para com a nossa aspiração a um conhecimento puramente intelectual do fundo das coisas; ninguém fez mais para torná-lo irresistível, mostrando que esse conhecimento é, não obstante, o único digno deste nome, não sendo o conhecimento sensível vazio — porque é simbólico do conhecimento verdadeiro e nos faz apreender o ser per especulum et in aenigmate —, mas inadequado, provisório e mesmo inteiramente vão quando crê apreender o real no próprio sensível. As antinomias têm talvez por único objeto estabelecer que o sensível não é, e não pode ser. Nenhum objeto sensível é porque: 1º nenhum ocupa um lugar determinado no tempo e no espaço porque não tem um começo e limites a partir dos quais se possa calcular; 2º nenhum é constituído por uma quantidade de matéria determinada, porque não há elementos últimos, unidades de matéria, de que se possa dizer ser composto; 3º nenhum é completamente explicado quanto ao seu devir, porque a regressão nas séries causais vai ao infinito; 4º nenhum é completamente explicado quanto à sua existência, porque não existe um primeiro ser que exista por si próprio e faça existir todos os outros. E todavia o completamente determinado (extensiva e intensivamente), o completamente explicado (quanto ao devir e à existência) deve ser, porque não podemos impedir-nos de os procurar; mas seria necessário procurá-los para além do tempo e do espaço, quer dizer, aí onde nos é atualmente impossível achá-los. Daí esse paradoxo da linguagem de Kant segundo o qual inteligível, quer dizer, o próprio objeto da nossa inteligência, é precisamente aquilo que escapa à apreensão da nossa inteligência.

Creio que o conceito (em geral, o conceito de um objeto qualquer), no que tem de próprio e enquanto distinto do esquema e da imagem, é, em Kant, o ato pelo qual nós pomos, por trás do véu do tempo e do espaço, o ser próprio, a ideia de cada coisa. Ele seria o ato próprio da Razão, se fosse ao mesmo tempo intuição deste ser, com o qual se confundiria inteiramente. Mas ele nada apreende e é vazio: então ele se completa como pode, substituindo a intuição intelectual do ser, primeiro pela do seu esquema, no tempo, e em seguida pela sua imagem, no espaço. Ele torna-se assim conceito no sentido vulgar da palavra, simples unidade exterior e acidental do diverso da intuição sensível, e a razão torna-se entendimento.

Kant sempre se ateve à sua sóbria e severa concepção de um conhecimento puramente simbólico do inteligível pelo sensível. Mas pensa-se que os seus sucessores poderão ter sonhado com um conhecimento direto e adequado do real, sem nenhum ponto de apoio no sensível: daí, neles, este novo papel da razão tornada já não só posição, afirmação, mas também intuição do real e inteiramente identificada com ele¹. (J. Lachelier)

Para Kant, se entendo bem, a razão, teórica ou prática, é a forma da universalidade. O entendimento resulta da relação desta forma com o espaço, o tempo e a intuição sensível; daí decorre que ele não pode ser adequada à razão, porque participa ao mesmo tempo do caráter infinito desta e do caráter finito da intuição. Esta distinção domina o racionalismo a partir de Kant. Em todo caso, domina inteiramente toda a filosofia de Hegel (consistindo esta unicamente em mostrar que as categorias do entendimento se contradizem quando se quer igualá-las à razão). Ela tem, portanto, uma grande importância histórica. E não terá uma importância duradoura? Se se reconhecer (e como não?) que o entendimento muda, não será a razão, senão enquanto ideia acabada, pelo menos enquanto ideal, que determina a direção destas mudanças, assim como também talvez a das mudanças nas regras da moral? (P.-F. Pécaut)

A oposição kantiana entre o entendimento e a razão, mesmo sob a forma menos estática que toma na filosofia de Hegel, não me parece ter tido grande influência na formação desta ideia. A concepção de uma razão adquirida, assegurada pela relação com o indivíduo, mas transformável em longos períodos, provém dos empiristas, partidários da evolução ou pragmatistas; e o seu sucesso foi favorecido pelo desejo de alguns filósofos (BALFOUR, por exemplo) oporem esta variação à fixidez da fé. Por outro lado, a ideia "compensadora" que permite, a despeito da primeira, manter um racionalismo ou, o que vem dar ao mesmo, uma filosofia, quero dizer, uma vecção, uma transformação dirigida, não é outra coisa senão a ideia da "convergência" tal como a definia Auguste Comte; ideia que se liga à concepção do progresso em direção a um limite, familiar a Leibniz e ao século XVIII e cuja origem remonta à teoria aristotélica do movimento e do fim: οὐσία δὲ τὸ τέλος. É preciso chegar aqui, parece-me, ou continuar no puro acaso e recusar todo valor racional às regras lógicas e morais. Quanto a servir-me da oposição entre os termos entendimento e razão para representar a de razão constituída e razão constituinte, creio que só poderia conduzir a confusões. Existe, em particular, uma razão prática constituída. Se quiséssemos chamar-lhe "entendimento prático", esta expressão seria compreendida sem falsos sentidos? Por outro lado, as "Ideias da Razão", tais como as enumera Kant, o Mundo, a Alma, Deus, e, do ponto de vista prático, a Liberdade e o Soberano Bom, são evidentemente produtos da razão adquirida: podemos constatar a sua transformação. Porém, poder-se-iam atribuir ao "entendimento"? (A. L.)

Razão constituinte e Razão constituída. Na primeira redação deste artigo, a Crítica terminava assim: "Distinguir estes dois aspectos da razão parece-me necessário se quisermos esclarecer e precisar o sentido dessa palavra. Peço a permissão para mencionar, para tanto, as duas expressões razão constituinte e razão constituída que já empreguei num curso consagrado a esta análise (1909-1910); deste então, servi-me delas muitas vezes no meu ensino e achei-as claras para os auditores e cômodas nas aplicações." No que me diz respeito, tinha sido levado a esta distinção pela análise da evolução e da dissolução, por um lado, e, por outro, por algumas constatações feitas sobre a história das ciências. Quanto aos próprios termos, creio que, sem mo lembrarem expressamente , me foram sugeridos por uma frase de Boutroux: "Terá o hegelianismo encerrado o período do desenvolvimento da noção de inteligibilidade?... A Razão, numa palavra, estará definitivamente constituída?" Bulletin da Soc. Fr. de Filos., 1907, p. 151. Estes termos provocaram além da observação de F. Pécaut que foi reproduzida mais acima as seguintes observações de Mentré:

"Por que não adotar os termos mais simples de razão raciocinante e razão raciocinada? Por outro lado, esta distinção repousa sobre o postulado de que a razão não é fixa, mas em estado de devir: a razão organiza-se pouco a pouco. Além disso, este devir pode ser explicado de várias maneiras e não implica forçosamente a tese evolucionista: ou a razão se explicita progressivamente e toma uma consciência cada vez mais clara dos seus princípios e do mecanismo de seus processos, ou então forma-se e modifica-se no decurso da experiência específica a partir de um certo estado inicial."

Sobre o primeiro ponto, não creio ser possível empregar razão raciocinante, porque esta expressão tem já, no uso filosófico, um sentido usual e consagrado: designa a razão no sentido A. (Ratio de São Tomás, enquanto se opõe a Intellectus; cf. D. Vernunftschlüsse.)

Sobre o segundo ponto, eu não caracterizaria o devir da razão constituída nem pela evolução spenceriana, para a qual não existe outra razão constituinte senão a natureza das "coisas" à qual o pensamento se adapta gradualmente; nem por uma ou outra das teses que Mentré propõe para substituir aquela. Eu também não o entenderia da mesma maneira que Boutroux no artigo citado mais acima: sou sensível à força das suas críticas contra o hegelismo e à profunda verdade das suas observações sobre o perigo e o erro de estender as diferenças até fazer delas contradições; mas não poderia concluir a partir daí que o progresso da razão é uma marcha em direção ao individual. Deste modo, e para retomar um dos exemplos que ele próprio cita, não levará este progresso a uma assimilação das classes sociais hereditariamente diferenciadas mais do que a uma harmonia onde seriam mantidas as suas oposições? Eu diria, antes, que o espírito, ou pelo menos uma das funções essenciais do espírito, consiste na tendência para a identidade. O mesmo vale mais do que o outro, como já dizia Platão; e este juízo, de caráter normativo no seu fundo, parece-me ser o que se aproxima mais de exprimir a razão constituinte. Esta tendência não pode atingir o seu objetivo integralmente, uma vez que a identidade pura, para o nosso modo atual de pensamento, seria o nada; mas ela pode progredir sem cessar nessa direção, assimilando gradualmente as diversidades dadas, cuja presença efetiva constitui o "real", no sentido C. Cada categoria, cada princípio formulado são compromissos entre esta tendência e tal ou tal parte da experiência que a ela se presta mais ou menos facilmente (e talvez se preste mais à medida que ela própria se transforma). Dei disso um exemplo no artigo ?Causa (Crítica e observações). Notas análogas poderiam ser feitas sobre o tempo, o espaço, a substância, a matéria, o número. Não temos, portanto, um ponto de partida fixo, um capital racional, porque à medida que recuamos a razão constituída é cada vez menos firme, cada vez menos coerente. Também não temos princípios implícitos que se esclareceriam cada vez mais como admitia Leibniz (pelo menos exotericamente, nos Novos ensaios), mas uma verdadeira construção, que retém da matéria que ela organiza um elemento de ininteligibilidade e mesmo de contradição conceptual. No número cardeal abstrato, por exemplo, as unidades devem, ao mesmo tempo, não diferir em nada uma da outra, porque só se podem totalizar termos estritamente homônimos, e todavia elas dever permanecer distintas, porque sem isso elas se confundiriam, tal como na logística, em que a + a = a. Mas seria demasiado longo expor aqui completamente esta interpretação, que, aliás, constitui o objeto de todo o curso citado mais acima e cuja aplicação encontramos em La raison et les normes (1948). (A. L.)