A.
Sinônimo de saber. "Em terceiro lugar, quando eu disse que nada podemos saber certamente, se não conhecermos primeiramente que Deus existe, disse em termos expressos que não falava senão da ciência destas conclusões cuja memória nos pode vir ao espírito quando já não estamos pensando nas razões de onde as tiramos." DESCARTES, Resp. às 2ªˢ obj., 1ª parte. "Quotiescum que duorum de eadem re judicia in contrarias partes feruntur... ne unus quidem videtur habere scientiam: si enim hujus ratio esset certa et evidens ita illam alteri propone posset, ut etiam intellectum tandem convinceret." Id., Regulae, II, 2.
"Certitudo scientiarum omnium aequalis est, alioqui enim scientiae non essent: cum scire non suscipiat magis et minus." HOBBES, De principiis et ratiocinatione geometrarum, Introd.
B.
Por extensão (e um pouco abusivamente) o que dirige a conduta de maneira conveniente como o faria um conhecimento claro e verdadeiro. "Como explicar que existe em nós uma tal ciência, tão vasta, tão profunda, muitas vezes tão certa, como o são, em geral, os instintos?" RAVAISSON, "Testament philosophique", Rev. de mét., 1901, p. 11.
C.
Destreza técnica (particularmente em matéria de pintura, de música, de versificação); conhecimento da profissão.
D.
Conjunto de conhecimentos e de investigações com um suficiente grau de unidade, de generalidade, e suscetíveis de trazes aos homens que se lhes consagram conclusões concordantes, que não resultam nem de convenções arbitrárias, nem de gostos ou de interesses individuais que lhes são comuns, mas de relações objetivas que se descobrem gradualmente e que se confirmam através de métodos de verificação definidos. "A Diplomática e a História literária não são senão repertórios metódicos de fatos... Pelo contrário, a Filologia é uma ciência organizada que tem leis." LANGLOIS e SEIGNOBOS, Introd. aux études historiques, p. 34.
Cada um dos sistemas que acabamos de definir é "uma ciência"; a expressão "a ciência", no singular (e, por vezes, com maiúscula), designa quer o conjunto das ciências assim entendidas: "Os progressos da ciência moderna"; quer, in abstracto, uma ciência indeterminada, sobretudo enquanto se considera a sua autoridade e o seu valor: "A ciência provou que as estrelas são sóis"; quer, por fim, a atitude de espírito que lhes é comum: "A ciência desempenha o seu papel não reconhecendo outro ser, outra realidade, senão aquela que encerra nas suas fórmulas." BOUTROUX, Science et religion, p. 354.
E.
Mais especialmente, por oposição às "Letras" (e à filosofia considerada como parte das "Letras"), assim como ao Direito e à Medicina: as matemáticas, a astronomia, a física, a química e as ciências ditas "naturais". Esta oposição, consagrada na França pela organização das Faculdades, não parece repousar sobre razões justificáveis teoricamente: "A absurda e deplorável cisão das letras e das ciências não compromete somente o futuro da filosofia; ela falseia a sua história e torna o seu passado ininteligível, isolando-o das especulações científicas, onde ela sempre se enraizou." COUTURAT, Logique de Leibniz, prefácio, VIII (a propósito da distribuição arbitrária das obras de Leibniz, na edição Gerhardt, na Opera philosophica e na Opera mathematica).
Cf. ?Arte, Filosofia, ?História.
Crítica
A palavra ciência (G. ἐπιστήμη; L. Scientia) teve durante muito tempo um sentido forte que quase desapareceu na nossa época com o desenvolvimento "das ciências". Platão emprega esta palavra em diversos sentidos; porém, na classificação que ele dá dos graus de conhecimento (República, VII, 534 A), ele a aplica ao grau mais elevado: διάνοια designa o pensamento discursivo, ἐπιστήμη o conhecimento perfeito; e os dois estão reunidos sob o nome de νόησις. Em ARISTÓTELES, a palavra é empregada de maneira ampla; ele admite uma diversidade de ciências, num sentido próximo, sob alguns aspectos, ao dos modernos, ciências que não são todas perfeitas; mas a ciência propriamente dita, ἡ μάλιστα ἐπιστήμη, é aquela que tem por objeto τὰ πρῶτα καὶ τὰ αἴτια (Metafísica, I, 2; 982ᵇ1). Só há ciẽncia, diz ele ainda, quando sabemos que as coisas não podem ser de outra maneira; a ciência diz respeito ao necessário e ao eterno (Éti. a Nicôm., VI, 3; 1139ᵇ20-24; no entanto, ver as observações).
O sentido forte de scientia é frequente na Idade Média: "Scientia est assimilatio mentis ad rem scitam." S. TOMÁS DE AQUINO, Summa contra gentiles, 1, II, cap. 60. Domina igualmente na filosofia do século XVII, "Scientia, quae est essentia imago." BACON, Nov. Org., I, 120. "Que um ateu possa conhecer claramente que os três ângulos de um triângulo são iguais a dois retos, não o nego: afirmo somente que o conhecimento que ele tem não é uma verdadeira ciência porque todo conhecimento que pode tornar-se duvidoso não deve ser chamado ciência." DESCARTES, Respostas às 2ᵃˢ obj., 1ª parte. Ciência, na linguagem teológica, é o termo mais usual para designar o conhecimento que Deus tem do mundo. Ver Ciência média e cf. ?Presciência.
WOLFF define a ciência "habitum asserta demonstrandi, hoc est e principiis certis et immotis per legitimam consequentiam inferendi" (Logica, Discurso preliminar, II, § 30). Esta definição, muitas vezes citada, reproduz uma fórmula corrente na escolástica (ver GOCLENIUS, sub V⁰, 1010 A; EUSTÁQUIO DE S. PAULO, Summa phil., I, 231-233, citado em GILSON, Index scol.-cartesiana, sub V⁰) e que se liga à passagem da Ética a Nicômaco que citamos mais acima. Mas, com KANT, o que Goclenius chamava scientia improprie dicta começa a ocupar o primeiro lugar. Sem dúvida, Kant considera como ciência propriamente dita (eigentliche Wissenschaft) aquilo que é objeto de uma certeza apodítica; porém, ele define a ciência em geral como sendo qualquer doutrina que forme um sistema, quer dizer, qualquer conjunto de conhecimento ordenado segundo princípios (Met. Anfangsgründe der Naturwiss., Prefácio, § 2 e § 3). Esta última definição é hoje clássica. SPENCER, consagrando esta acepção, opôs numa fórmula célebre o conhecimento vulgar, a ciência e a filosofia: o primeiro é o conhecimento (knowledge) não unificado; a segundo, o conhecimento parcialmente unificado; a última, o conhecimento totalmente unificado (Primeiros princípios, 2ª parte, cap. I, § 37). Sabemos que vários dos nossos contemporâneos vão ainda mais longe e não vêem na ciência senão um sistema de notações que permite classificar e prever os fenômenos.
Rad. int.: A. B. C. Sáv; D. E. Scienc.