Abstrato/concreto

I. O termo latino ‹abstractum›, que BOÉCIO introduziu na linguagem filosófica, traduz na maioria das vezes a expressão encontrada em ARISTÓTELES τὰ ἐξ ἀφαιρέσεως [1], que designa de modo geral o ente matemático, na medida em que este é constituído pela exclusão daquelas determinações da essência sensível que, como, por exemplo, o movimento, são objeto da física. A expressão pode também designar, de modo mais geral, qualquer determinação que se possa pensar separadamente, mas que na realidade nunca existe separada de um substrato: assim, o branco [2]. Por outro lado, a expressão nunca é usada por Aristóteles para caracterizar o status do universal. A expressão antitética e simétrica é τὰ ἐκ προσθέσεως, «os entes constituídos por adição». Essa oposição tem, em muitos casos, apenas um significado funcional: assim, o ente geométrico, que possui uma situação no espaço e, com isso, uma matéria espacial (ὕλη τοπική), é um composto em comparação com a entidade mais abstrata, como o número; o ente geométrico, contudo, é ele mesmo um abstrato em comparação com o ente físico, que possui, além disso, a determinação do movimento [3].

Mas, na maioria das vezes, a expressão τὰ ἐξ ἀφαιρέσεως aponta para o caráter artificial da operação pela qual os entes matemáticos são constituídos, e acentua, com intenção polêmica contra o Platonismo, a não-independência ontológica destes. Deste ponto de vista ontológico, o oposto do abstrato não é mais τὰ ἐκ προσθέσεως, que remete a uma operação epistemológica, mas sim τὸ σύνολον, o todo concreto, que é composto de matéria e forma, e o único que possui a capacidade de existir independentemente na natureza. Presumivelmente Aristóteles tomou o termo πρόσθεσις do vocabulário da Academia: para PLATÃO e os platônicos, as ideias precedem o sensível que delas participa; em contraste com a pureza da existência ideal, o sensível é o resultado de um ato de «adição»; para ARISTÓTELES, ao contrário, o todo concreto (synolon) é o originário, do qual apenas através de uma «remoção», um processo de abstração (aphairesis), determinações parciais (por exemplo, «o branco» no «homem branco») podem ser isoladas pelo pensamento [4].

Aristóteles usa um outro termo, χωριστός (choristos), para designar o status ontológico dos entes inteligíveis, que são separados de toda matéria e ainda assim existem independentemente [5]. Como, porém, esse tipo de «separação» reflete uma determinação ontológica e não o resultado de um processo de conhecimento, recomenda-se distinguir claramente ambos os conceitos um do outro. Infelizmente, na tradição latina, já em BOÉCIO, ‹choriston› foi traduzido tanto por ‹abstractum› quanto por ‹separatum›. Essa confusão dos dois tipos de separação, ligada a influências platônicas, leva na Idade Média a nomear tanto as entidades inteligíveis quanto o universal (o aristotélico καθόλου) com ‹abstracta› (também no sentido de ‹separata›). O único uso consequente é o de ARISTÓTELES, que opõe τὸ ἐξ ἀφαιρέσεως, como o incompleto e não-independente, ao σύνολον como o completo e independente: neste sentido, se a forma «separada pelo pensamento» do todo concreto é um abstrato [6], o mesmo vale também para a matéria [7].

Enquanto a tradição latina sobrecarregou o conceito do abstrato com uma certa ambiguidade, que contribui para desencadear a disputa dos universais, o termo latino ‹concretum›, que significa «completo», corresponde ao uso aristotélico de ‹synolon›.

Notas: [1] ARISTÓTELES, De coelo III, 1, 299 a 15; De anima I, 1, 403 b 14; III, 4, 429 b 18; III, 7, 431 b 12; III, 8, 432 a 4; Met. VII, 4, 1029 b 29–33; XI, 3, 1061 a 28; XIII, 2, 1077 a 36–b 14. [2] Met. XIII, 2, 1077 b 9. [3] Anal. post. I, 27, 87 a 31–37; Met. XI, 3, 1061 a 29s. [4] Met. XIII, 2, 1077 b 9–10. [5] Met. VI, 1, 1026 a 8, 16; De anima III, 5, 430 a 17 (sobre o NOUS). [6] Cf. Phys. I, 1, 193 b 4–5. [7] Cf. Met. XIV, 2, 1089 b 28. Referências Bibliográficas: A. MANSION: Introd. à la phys. arist. (Louvain/Paris 1913, 21946). – A. SEIFFERT: Concretum (1961). Autor: P. AUBENQUE


II. As expressões ‹abstrato› e ‹concreto› foram introduzidas na linguagem filosófica por BOÉCIO, mas são utilizadas por ele apenas raramente e ainda não como um par fixo de opostos. Em ‹De Trinitate›, ele traduz o termo xwριστά (chorista), usado por Aristóteles no quadro de sua divisão das ciências, por «abstracta»: a teologia trata do que é «separado» da matéria, o espiritual «puro» livre de matéria [1]. A física e a matemática não tratam de algo tão puramente espiritual; a matemática também se ocupa de tais objetos que, pelo menos quanto ao ser, ainda que não quanto à consideração, são «inabstracta» (não separados) da matéria. Com essa palavra, Boécio traduz o aristotélico ἀχώριστα (achorista), que segundo a leitura tradicional, hoje contestada, do texto aristotélico, caracteriza os objetos da física e da matemática [2].

Enquanto na Escolástica se tornou bastante comum designar o que é ontologicamente separado da matéria como ‹abstrato› — e isso também porque na história da palavra ‹Abstração› (vide verbete) um dos seus significados se tornou a separação da matéria —, o uso da expressão ‹inabstractum›, que se encontra nos comentários à citada obra de Boécio, permanece restrito, mormente porque ἀχώριστος também é traduzido por ‹inseparabilis›. No entanto, na medida em que GILBERTO DE LA PORRÉE explica ‹inabstractum› — palavra que Boécio havia referido à «forma unida à matéria» [3] — através da expressão ‹concretum› (concreta et inabstracta) e, neste contexto, chama as formas puras simples e arquétipos de «abstratas, de modo algum concretas» (abstractae et eis [sensibilibus] minime concretae) [4] — e num sentido semelhante também CLARENBALDUS DE ARRAS utiliza a expressão ‹concreto› [5] —, prepara-se assim o uso posterior do par de opostos ‹abstrato› e ‹concreto›.

BOÉCIO, porém, também havia declarado, no âmbito de sua doutrina da abstração (ἀφαίρεσις), que a «natureza incorpórea», isto é, a espécie ou gênero, está «concrescida» (concreta) com o corpo e pode ser separada dessa união pelo intelecto na abstração [6]. Boécio, contudo, não chama os conceitos assim obtidos pela abstração e os objetos matemáticos de abstracta. É verdade que ISIDORO DE SEVILHA fala neste sentido de «quantidade abstrata» [7], o que mais tarde, por exemplo, HUGO DE SÃO VITOR repete numa citação quase literal [8], mas os conceitos obtidos pela abstração não foram chamados de abstratos por isso, porque com a plena formação e difusão da doutrina da abstração tornou-se usual também o uso linguístico de ‹abstrato› e ‹concreto› a ser mencionado a seguir, segundo o qual devem-se distinguir termos abstratos e concretos dentro dos conceitos abstraídos. Somente quando essa distinção, usual até o século XVIII, não era mais importante ou conhecida, é que os conceitos não-intuitivos e relativamente vazios puderam ser designados no total como ‹abstratos› em oposição ao concreto dado intuitivamente.

Para a formação da distinção entre conceitos abstratos e concretos, deve-se remeter novamente a BOÉCIO, porque também o axioma estabelecido por ele sobre a diferença entre o ser e aquilo que é (diversum est esse et id quod est) [9] é uma origem dessa distinção. Depois que GILBERTO DE LA PORRÉE explicou essa diferença através da diversidade de ‹corporalitas› e ‹corpus›, bem como de ‹humanitas› e ‹homo›, e observou que Ser, Ser-corpo e Ser-homem são considerados abstratamente (abstractim attenditur), mas estão unidos à matéria e ao sujeito, não-separados (inabstractum) [10], o que segundo Gilberto também pode ser chamado de ‹concreto›, TOMÁS DE AQUINO explica esse axioma a partir da diversidade de conceitos abstratos e concretos (rationes seu intentiones): «Correr e Ser são designados in abstracto, assim como a brancura (albedo), mas o que é, isto é, o ente e o que corre, é designado in concreto, assim como o branco (album)» [11].

A diferença assim nomeada entre nomes, termos ou conceitos abstratos e concretos — onde nomes abstratos nomeiam um ato (atividade ou propriedade) ou uma forma sem o seu sujeito, enquanto conceitos concretos designam o ato ou a forma como «concrescidos» com o seu portador — não provém, certamente, quanto à terminologia, de Tomás de Aquino; a distinção deve ser rastreada, numa pré-forma muito próxima, já na segunda metade do século XII em ALANO DE LILLE. Este distingue em suas ‹Regras Teológicas› «nomes matemáticos ou principais» (nomina mathematica sive principalia), que designam uma propriedade «matematicamente, isto é, abstrativamente» (mathematice, id est abstractive) sem referência ao sujeito, como ‹albedo›, e «nomes concretivos ou assumidos» (concretiva sive sumpta), que designam as propriedades concretivamente, isto é, como inerentes aos sujeitos, como ‹album› [12]. Essa distinção leva à «regra» de que todos os «nomes matemáticos», que tendem mais para a simplicidade, são predicados de Deus «menos impropriamente» do que os concretivos [13].

Essa distinção tornou-se então comum no século XIII, com a alteração da expressão ‹matemático› para ‹abstrato›, mormente porque também AVERRÓIS, por exemplo, havia distinguido os nomes ‹Vida› e ‹Vivente›, que designavam uma forma sem o seu portador ou no seu sujeito [14].

Enquanto GUILHERME DE AUVERGNE fala pelo menos ocasionalmente de nomes abstratos, como ‹deitas›, e nomes concretos, como ‹deus› (nomen abstractum – nomen concretivum) [15], BONAVENTURA explica que o nome ou termo abstrato (p. ex., albedo) é atribuído a partir da forma e à forma, o nome ou termo concreto (p. ex., album) é atribuído, é verdade, a partir da forma, mas não à forma, e sim ao suppositum, à coisa que subsiste em si mesma [16]. ALBERTO MAGNO constata que o abstrato não é predicado do concreto e vice-versa [17].

Controverso desde o século XIII é o status ontológico daquilo que é designado pelos conceitos abstratos. Correspondendo às diferentes doutrinas sobre a realidade do universal, devem-se distinguir principalmente três direções de solução:

Primeiro, em continuação do realismo platônico do século XII, segundo o qual, como ensina por exemplo CLARENBALDUS DE ARRAS, «a uma e mesma humanidade» (humanitas), à qual se juntam os acidentes que fundamentam a multiplicidade, «é aquilo pelo qual os homens individuais são homens» [18], o abstrato é afirmado como fundamento e arquétipo do concreto. Assim, segundo MESTRE ECKHART, «o concreto preexiste no abstrato como o participante naquilo de que participa» [19]. De modo semelhante, diz-se em NICOLAU DE CUSA que o abstrato é contraído no concreto, sendo que ao abstrato essencialmente finito, como a brancura, não é atribuído, contudo, nenhum ser próprio independente [20].

Segundo, conforme TOMÁS DE AQUINO, conceitos concretos designam «algo composto completo», «subsistente em si»; conceitos abstratos, por outro lado, designam algo «ao modo de uma forma», que é simples, mas não subsiste por si, e assim designam algo «non ut quod est, sed ut quo est» [21], isto é, não como um ente subsistente, que existe por si, mas como princípio não-independente, que, como ser, forma substancial e matéria prima, é apenas no fundamentar dos entes concretos [22]. Mas, assim como uma forma substancial fundamenta uma substância, também uma forma acidental, a ser apreendida num conceito abstrato, fundamenta as propriedades concretas ou atividades da substância, a partir das quais, por sua vez, o sujeito pode ser nomeado num nome concreto [23]. Porque nomes abstratos designam o simples, mas não subsistente, e nomes concretos o subsistente, mas composto, Deus deve ser nomeado com nomes concretos e abstratos, cujo modo de significação (modus significandi), contudo, deve ser sempre parcialmente negado [24].

Terceiro, DUNS SCOTUS interpreta o designado pelos conceitos abstratos no sentido de sua metafísica. Conceitos concretos são impossivelmente mais simples do que conceitos abstratos [25], pois o abstrato, por exemplo, a brancura, é tomado sem o sujeito (o objeto que é branco) ou, em abstração ainda maior, sem o suppositum (esta brancura real), como puro conteúdo real que prescinde de individualidade e realidade [26]. «Na medida em que o abstrato é concebido em última abstração, a essência é entendida sem relação a qualquer coisa que esteja fora de sua essência peculiar» [27]. Esse conteúdo real, necessário também em sua pura possibilidade, é real no sentido da natura communis (vide verbete).

Frente a uma distinção entre nomes e conceitos abstratos e concretos caracterizada por pressupostos e implicações «realistas», GUILHERME DE OCKHAM parte, em seu extenso tratado sobre nomes abstratos e concretos [28], apenas da palavra falada ou escrita, a qual ele, certamente, remete ao verbum mentis, o conceito pensado [29]. Imediatamente após a distinção de termos categoremáticos e sincategoremáticos, nomes abstratos e concretos são definidos no sentido de que possuem, quanto ao som, um início semelhante, mas não um fim semelhante. O nome abstrato teria sempre ou frequentemente mais sílabas que o concreto e, finalmente, o nome concreto seria frequentemente adjetivo, e o abstrato substantivo [30].

Em detalhe, Ockham trata então primeiramente de nomes concretos e abstratos não-sinônimos, que supõem por coisas diferentes. Para isso são nomeados «como que três subgêneros»: 1. O nome abstrato supõe por um acidente ou uma forma inerente realmente ao sujeito; o nome concreto, pelo sujeito desse mesmo acidente ou dessa mesma forma, p. ex. ‹albedoalbum› ou ‹sciensscientia›. O nome abstrato pode, porém, também supor inversamente pelo sujeito, e o concreto pelo acidente desse sujeito, p. ex. ‹ignisigneus›. – 2. O nome abstrato supõe pela parte, o concreto pelo todo, p. ex. ‹animaanimatum›. – 3. Nomes abstratos e concretos podem supor por coisas diferentes que estão entre si na relação de causa e efeito, signo e designado ou lugar e localizado no lugar, p. ex. ‹Inglaterra› e ‹Inglês› [31].

Como nomes abstratos e concretos sinônimos devem ser consideradas expressões como ‹DeusDeitas›, ‹homohumanitas›, ‹animalanimalitas›, mas também palavras como ‹quantumquantitas›, ‹longumlongitudo›, ‹simumsimitas›, ‹causacausalitas› [32]. A equivalência de ‹homo› e ‹humanitas› resulta do fato de que ‹homo› se relaciona com ‹humanitas› como ‹Sortes› [Sócrates] com ‹Sorteitas›. Visto que estes não designam nada de diferente, também não o fazem ‹homo› e ‹humanitas›, o que, certamente, é restringido em relação à união hipostática [33].

Visto que nomes abstratos pertencem mais à linguagem erudita do que à comum (dicta philosophorum – vulgaris locutio), pode haver além disso nomes abstratos que são abreviação para várias expressões ou para muitas proposições e equivalentes a elas. Assim, por exemplo, ‹humanitas› poderia ser usado como equivalente a ‹homo inquantum homo›. Através de tais interpretações de nomes abstratos, muitas proposições de autores reconhecidos podem ser «salvas», as quais em seu teor literal parecem ser falsas [34].

Finalmente, Ockham cita tais nomes abstratos que estão por uma multiplicidade de singulares tomada conjuntamente, enquanto os nomes concretos correspondentes podem ser predicados de um singular, p. ex. ‹plebsplebeius›. Ockham não reivindica completude com essa classificação [35], que no todo — apesar da partida da palavra «exterior» — corresponde exatamente à sua ontologia, com a negação de um universal de algum modo real nas coisas e de uma diversidade real entre substância e quantidade.

Notas: [1] BOÉCIO, De Trinitate II. MPL 64, 1250. [2] Cf. ARISTÓTELES, Met. VI, 1, 1026 a 14; cf. sobre as leituras controversas J. OWENS: The doctrine of being in the Aristotelian Metaphysics (Toronto 1951) 382. [3] BOÉCIO, loc. cit. [1]. [4] GILBERTI PORRETAE Commentaria in De Trin. MPL 64, 1266s. [5] W. JANSEN: Der Kommentar des Clarenbaldus von Arras zu Boethius De Trinitate (1926) 55. [6] BOÉCIO, In Porph. Comm. I. MPL 64, 84. [7] ISIDORO, Etymol. II, 24. [8] Cf. UEBERWEGS Grundriß der Gesch. der Philos. 2: Die patristische und scholastische Philos., ed. B. GEYER (121951) 264. [9] BOÉCIO, Quomodo substantiae bonae sint. MPL 64, 1311. [10] GILBERTI PORRETAE Comm. in lib. Quomodo ... MPL 64, 1318. [11] TOMÁS, In De Hebd. 2 (22). [12] ALANUS de INSULIS, Theologicae Regulae XXX. MPL 210, 635s. [13] loc. cit. XXXI = 636. [14] AVERRÓIS, In Met. XII, 3 (Veneza 1562, Reimpressão 1962) fol. 322v. [15] GUILHERME DE AUVERGNE, De universo I, 1, c. 1. Opera (Paris 1574, Reimpressão 1963) 1, 686. [16] BONAVENTURA, I. Sent. 4, 1, q. 1. [17] ALBERTO MAGNO, De bono I, 1, art. 5, ed. KÜHLE, FECKES et al. (1951) 10. [18] CLARENBALDUS, loc. cit. [5] 42. [19] ECKHART, In Joh. n. 14. Lat. Werke 3, 13. [20] NICOLAU DE CUSA, De docta ignorantia II, 4; cf. II, 1. [21] TOMÁS, I Sent. 33, 1, 2, 5; 34, 1, 1; S. contra gent. I, 30. [22] Cf. De Trin. 5, 4. [23] Cf. p. ex. De ver. 3, 7, 2 com De virt. 11; para interpretação L. OEING-HANHOFF: Ens et unum convertuntur (1953) 101. [24] TOMÁS, S. theol. I, 13, 1, 2. [25] DUNS SCOTUS, Theoremata, Theor. IX. [26] Quaest. sup. lib. Met. III, 1; cf. a recepção e desenvolvimento destas distinções por PETRUS TARTARETUS, Comm. in lib. praedicamentorum (Basiléia 1514) fol. 23v. [27] Ord. I, 8, p. 1, q. 4, n. 219 (ed. BALIC). [28] GUILHERME DE OCKHAM, S. logicae, Pars Prima, ed. PH. BOEHNER (1957); c. 5–9 loc. cit. 16–33. [29] c. 2 e 3 = 10–14. [30] c. 5 = 16. [31] c. 5 = 16–18. [32] c. 6 = 18–21. [33] c. 7 = 22–27. [34] c. 8 = 28–32. [35] c. 9 = 32s.


III. A refundação da filosofia empreendida por DESCARTES sem consideração pelo uso linguístico da Escola [1] tinha o objetivo de conduzir o espírito, liberto dos preconceitos inclusive da linguagem [2], a fatos evidentes. Nisso, a distinção entre nomes abstratos e concretos, importante no máximo numa partida da linguagem, não encontrou entrada na nova filosofia. Mas a filosofia escolar conservou essa distinção, que GOCLÊNIO havia tratado de modo particularmente detalhado em seu léxico com a observação de que ela era «muito frutífera» [3]. Frente a essa repetição detalhada da doutrina escolástica, onde p. ex. também se menciona a expressão ‹numerus abstractus› (numerus numerans) e ‹numerus concretus› (numerus numeratus) e se caracteriza particularmente a doutrina própria escotista, a ockhamista é contudo ignorada, a explicação dada por CHR. WOLFF no século seguinte é concisa: «notio abstracta aliquid, quod rei cuidam inest vel adest (scilicet rerum attributa, modos, relationes) repraesentat absque ea re, cui inest vel adest» [4]. A distinção teve importância factual sobretudo na Cristologia da dogmática protestante antiga: como Deus se tornou homem, mas não a divindade se tornou a humanidade, uma natureza não pode ser predicada da outra in abstracto, mas o concretum de uma natureza é predicado do concretum da outra [5].

Mas também fora da Escola a distinção entre nomes abstratos e concretos foi discutida, como mostram já as exposições de HOBBES sobre sua utilidade e desvantagem. Hobbes vê a origem dessa distinção «comumente usual» na predicação, mais precisamente na cópula, dado que nomes abstratos designam o Ser-corpo, Ser-quente, Ser-homem etc., isto é, aquilo que é causa de chamarmos algo de corpo, quente, homem etc. Útil é essa distinção porque, na maioria das vezes, sem ela não se poderiam calcular as propriedades dos corpos; pois trata-se, por exemplo, de indicar o dobro do calor, não do quente. Seu abuso consiste no erro grosseiro de alguns metafísicos, que, a partir da possibilidade de consideração separada, concluem uma existência separada do corpo [6].

Frente a LOCKE, que não sabe muito o que fazer com a distinção entre termos abstratos e concretos e que vê na falta de nomes abstratos como «Ouro-idade» (Goldheit) uma confirmação de que não conhecemos «as essências reais das substâncias» [7], LEIBNIZ fornece mais uma vez um resumo da doutrina tradicional, na qual ele distingue o real e logicamente abstrato, sendo o primeiro «essências, cujas partes ou acidentes são». Com razão, Leibniz aponta finalmente que p. ex. «humanitas» é equivalente a «natureza humana», razão pela qual também na Antiguidade era conhecido o que se pretendia com a distinção de nomes abstratos e concretos [8].

LOCKE chamou as ideias gerais obtidas por abstração a partir de «ideias particulares» de «abstract ideas» [9]. A ‹Encyclopédie› de DIDEROT retoma esse uso linguístico e o leva adiante: Enquanto a menção da distinção «escolástica» entre nomes abstratos e concretos, explicada de modo muito semelhante a Wolff, serve apenas para informação histórica, aqui todas as palavras (tous les termes de la langue) que não são nomes próprios são chamadas de abstratas, portanto também conjunções, preposições etc. Diferentemente de Locke, chamam-se ‹abstratas› não apenas as ideias gerais, mas também aquelas individuais que são obtidas em «abstração física» a partir da decomposição da ideia total de um indivíduo [10]. Doutrinas semelhantes encontram-se na filosofia escolar alemã contemporânea. Assim, CH. A. CRUSIUS distingue «ideias individuais» e «abstratas» e ensina que os conceitos são «ou concretos ou não-decompostos», ou «decompostos ou abstratos» [11]. A. G. BAUMGARTEN fornece como tradução de ‹abstrato› e ‹concreto› «separado» (abgesondert) e «não-separado» (unabgesondert) e chama o ens universale «considerado em múltipla determinação» de um «concretum», e um «abstractum», por outro lado, na medida em que não é considerado mais determinadamente e no particular [12]. A partir daqui deve-se entender a doutrina de KANT: «As expressões do Abstrato e Concreto referem-se, portanto, não tanto aos conceitos em si mesmos, pois cada conceito é um conceito abstrato, mas muito mais apenas ao seu uso. E este uso pode, por sua vez, ter diferentes graus; conforme se trata um conceito ora mais, ora menos abstrata ou concretamente, isto é, ora mais, ora menos determinações ou se omitem ou se acrescentam» [13].

No século XIX, SCHOPENHAUER refere então as expressões ‹abstrato› e ‹concreto› novamente aos próprios conceitos, não ao seu uso. Partindo de sua concepção da abstração, que «consiste no pensar-afastando (Wegdenken) das determinações mais próximas», ele chama fundamentalmente todos os conceitos de «representações abstratas, não intuitivas, gerais». Por isso, o falar de conceitos concretos seria «impróprio», haveria apenas conceitos abstratos mais ou menos distantes do apreendido «intuitivamente in concreto». Os conceitos próximos à intuição como ‹homem› e ‹cavalo› são, porém, chamados de concretos em sentido impróprio; os conceitos que habitam, por assim dizer, nos andares superiores da reflexão, como ‹relação› e ‹virtude›, são abstratos em sentido eminente [14]. NIETZSCHE falou então de «abstração anêmica» (blutleerer), chamou «todo o aparato de conhecimento de um aparato de abstração e simplificação» [15] e tentou deixar para trás à sua maneira o «Abstrato-Esquemático» [16].

Mas também no século XIX permaneceu conservado o uso linguístico mais antigo referido a nomes e conceitos abstratos e concretos. W. WUNDT, que, apoiado nos dados de Prantl, esboça uma história dos conceitos, discute a proposta de Mill de «restabelecer o uso linguístico escolástico», mas acredita que este perdeu o direito de cidadania no reino da linguagem atual. Segundo ele, chamam-se ‹abstratos› «aqueles conceitos aos quais não corresponde uma representação substituta adequada», ‹concretos› correspondentemente os conceitos cuja «representação representativa» ... «consiste não apenas na palavra, mas além disso ainda numa intuição sensível, na qual os elementos essenciais do conceito estão realizados» [17]. Mas antes B. BOLZANO, invocando Locke e Leibniz, já havia chamado o tipo de representações que tem a forma: «Algo, que tem (a propriedade) b», de uma representação concreta ou também simplesmente de um Concretum, e a «representação de propriedade», por outro lado, porque ela aparece como um componente naquela concreta, de «o Abstractum da mesma». Diferentemente da antiga doutrina assim apenas repetida indiferenciadamente, Bolzano nomeia também representações que não são nem abstratas nem concretas, como «algo», «nada» ou «este A». Representações concretas são, segundo Bolzano, «sempre compostas», mas são «na invenção da linguagem em geral anteriores aos seus Abstracta», os quais, como a expressão ‹Ouro-idade›, parece supérfluo formar expressamente, já que este conceito pode ser designado, se necessário, pela conexão de várias palavras como «a propriedade do ouro» [18].

Em Bolzano e na distinção de conceitos abstratos e concretos no seu sentido liga-se HUSSERL nas ‹Investigações Lógicas› e chega, contra uma «lógica nominalista», ao resultado de que «conteúdos abstratos são conteúdos não-independentes, conteúdos concretos [são] independentes». Com consideração da relação de parte e todo, diz-se: «Consequentemente, um Abstractum é simplesmente um conteúdo para o qual existe em absoluto um Todo, em relação ao qual ele é uma parte não-independente» [19].

Mas não o uso linguístico de Husserl, e sim o de SCHOPENHAUER deve ter se tornado entrementes o dominante, mormente porque também a lógica mais recente não parece estar interessada na distinção de nomes ou conceitos abstratos e concretos. O ‹Duden› cita como significado linguístico de abstrato: «Substantivo que nomeia algo não-objetual (Nichtgegenständliches), p. ex. Amor» [20].

Ao ter acentuado o problema da independência ou não-independência em sua distinção de abstrato e concreto, HUSSERL deve ter deixado claro ao mesmo tempo que essa distinção é de interesse mais com vistas à ontologia do que à gramática e lógica, se é que «a independência é a característica estrutural decisiva pela qual se determina o que deve valer como real e o que não» [21]. Quem, portanto, pergunta por Ser, ente e entidade (Seiendheit), não deveria ignorar a diversidade já linguística dessas expressões. A falta de clareza existente em M. HEIDEGGER sobre a independência ou não-independência do Ser distinguido do ente [22], mas ainda mais a tese de N. HARTMANN de que o Ser se distingue do ente «como Verdade e Verdadeiro, Realidade e Real» [23] — o que, porém, vale obviamente para a palavra ‹entidade› (entitas), não para o infinitivo ‹Ser› (esse) — deve sugerir não passar completamente ao largo da tradicional distinção de nomes abstratos e concretos neste campo.

A história conceitual moderna de ‹abstrato› e ‹concreto› tem, contudo, um espectro de significados ainda mais amplo do que mostra a visão geral dada até aqui apenas pelo fio condutor do uso linguístico mais antigo. Transversalmente a este parece estar já a observação de DESCARTES de que a análise dos antigos e a álgebra dos modernos se referiam a coisas «muito abstratas», aparentemente inúteis [24], enquanto sua designação da mathesis universalis, que trata apenas de relações de ordem, encontrem-se elas em números ou figuras, como «mathesis abstracta» se insere sem esforço no uso linguístico anterior [25]. Também PASCAL não fala a linguagem da Escolástica quando opõe as «sciences abstraites» ao «l'étude de l'homme» [26]. A oposição «abstrato/realmente existente» é formulada na Grande Enciclopédia [27] e «classicamente» documentável pela palavra de GOETHE: «A humanidade? Isso é um abstrato (Abstraktum). Desde sempre existiram apenas homens» [28].

Também o uso linguístico de HEGEL de ‹abstrato› e ‹concreto› significou um novo começo, embora ele se orientasse pelo significado fundamental de ‹abstrair› como «prescindir de» (absehen von). Assim, a vontade pode prescindir de todo o dado, «deixar cair tudo»; mas se caracterizarmos a vontade e sua liberdade apenas pelo poder-dizer-não, prescinde-se novamente de sua possível realização no querer do racional, pensa-se unilateralmente, isto é, abstratamente [29]. O real determinado completa e racionalmente é, ao contrário, o Concreto, o concrescido (Zusammengewachsene) a partir de várias determinações [30], o que, em última análise, o Espírito é como «o Absoluto-Concreto» [31].

Esse uso linguístico, segundo o qual ‹abstrato› significa unilateral, vazio, não-dialético, e ‹concreto› significa real, preenchido, completamente determinado, foi retomado por MARX e pelo Marxismo [32] e entrou na linguagem em geral. Pode bastar concretizar isso uma vez através de títulos de livros como ‹Vers le Concret› (J. WAHL), ‹Approches concrètes du mystère ontologique› (G. MARCEL), ‹Razão Concreta› (Konkrete Vernunft - Festschrift Rothacker) ou ‹Dialética do Concreto› (KOSIK), e por outro lado documentá-lo pelo fato de que M. HEIDEGGER indica «a elaboração concreta da questão do ser» como objetivo de ‹Ser e Tempo› e afirma a questão do ser como «a questão mais concreta» [33], enquanto TH. ADORNO cita no prefácio de sua ‹Dialética Negativa› a palavra de W. BENJAMIN, de que somente «pelo deserto de gelo da abstração» se chega «de forma concisa ao filosofar concreto» e afirma: «A concreção foi na filosofia contemporânea na maioria das vezes apenas obtida ardilosamente (erschlichen)» [34].

A. SEIFFERT, que em 1961 analisou criticamente o uso linguístico atual de (abstrato) e ‹concreto›, chega à constatação: «‹Concreto› – esta palavrinha torna-se o remédio universal filosófico, o predicado laudatório por excelência» [35]. Talvez a história dos conceitos possa ser um contrapeso contra a adoção acrítica de um uso linguístico da moda e contra o pensamento abstrato, «inculto» [36].

Notas: [1] DESCARTES, Regulae III. Oeuvres, ed. ADAM/TANNERY (= A/T) 10, 369. [2] Cf. Med. II. A/T 7, 32; cf. Recherche de la vérité. A/T 10, 515s. [3] R. GOCLENIUS: Lexicon philosophicum (1613, Reimpressão 1964) s.v. ‹abstractum›. [4] CHR. WOLFF, Logica § 110. [5] Cf. o resumo em H. SCHMID: Die Dogmatik der evang.-luth. Kirche (71893) 232s. [6] HOBBES, De corpore I: Logica III, 4. Opera lat., ed. MOLESWORTH 1, 29ss. [7] LOCKE, An essay conc. human understanding III, 8, ed. FRASER 2, 101ss. [8] LEIBNIZ, Nouveaux Essais ... III, 8. Philos. Schriften, ed. GERHARDT 5, 314s. [9] LOCKE, loc. cit. [7] II, 11 = 1, 206s. [10] Encyclopédie ... des sciences (Genebra 31778) s.v. ‹abstrait (terme)› e ‹abstraite (idée)›. [11] CH. A. CRUSIUS: Weg zur Gewißheit und Zuverlässigkeit der menschlichen Erkenntnis (1747) §§ 119. 124. [12] A. G. BAUMGARTEN: Met. (31779, Reimpressão 1963) § 149. [13] KANT, Logik, Akad.-A. 9, 99, § 16, Nota 1. [14] SCHOPENHAUER, Die Welt als Wille und Vorstellung I, § 9, § 12. Werke, ed. HÜBSCHER 2, 47s. 49. 63. [15] NIETZSCHE, Do espólio dos anos oitenta, Werke, ed. SCHLECHTA 3, 442. [16] Die Philos. im tragischen Zeitalter ... loc. cit. 3, 389. [17] W. WUNDT: Logik 1: Erkenntnislehre (1880) 97s. [18] BOLZANOS Grundlegung der Logik (Wissenschaftslehre I/II), ed. F. KAMBARTEL (1963) 93ss. 204s. [19] E. HUSSERL: Log. Untersuch. 2 (1901) 218. 215. 260. [20] Der Große Duden 1 (161967) s.v. ‹Abstraktum›. [21] W. WIELAND: Wissenschaft und Ethik, in: Aus Politik und Zeitgeschichte B 1/64 (1964) 16. [22] Cf. M. HEIDEGGER: Was ist Met. (41943) 26 com (51949) 41; sobre o problema da inversão aqui realizada sem fundamentação da afirmação sobre a independência do Ser: K. LÖWITH: Heidegger. Denker in dürftiger Zeit (1953) 39ss. [23] N. HARTMANN: Zur Grundlegung der Ontologie (31948) 40s. [24] DESCARTES, Discours de la méthode II. A/T 6, 17. [25] Med. V. A/T 7, 65. [26] PASCAL, Pensées, ed. BRUNSCHVICG Nr. 144. [27] Encyclop. loc. cit. [10]. [28] GOETHE, Conversa com H. Luden, em: K. ROSSMANN: Dtsch. Geschichtsphilos., Ausgewählte Texte (1969) 180. [29] HEGEL, Grundlinien der Philos. des Rechtes §§ 5ss. [30] Einl. in die Gesch. der Philos., ed. HOFFMEISTER (31959) 98; cf. 30s. 111ss. 139ss. [31] Enzyklopädie § 164. [32] MARX, p. ex. Teses contra Feuerbach 5–7; E. V. IL'ENKOV: Über die Dialektik des Abstrakten und Konkreten in der wissenschaftlich-theoretischen Erkenntnis. Voprosy Filosofii, ed. GOERDT (1960) 268s. [33] M. HEIDEGGER: Sein und Zeit (51941) 1 e 9. [34] TH. ADORNO: Negative Dialektik (1966) 7. [35] A. SEIFFERT: Concretum (1961) 124. [36] Cf. HEGEL, Wer denkt abstrakt? Werke, ed. GLOCKNER 20, 447. Autor: L. OEING-HANHOFF