(ingl. enthusiasm, fr. enthousiasme; al. Enthusiasmus)
Indica, etimologicamente, uma exaltação espiritual e em especial a INSPIRAÇÃO [v.] transcendente (em grego éntheos é aquele que é inspirado por um deus) considerada na origem da inconsciente criação poética.
Platão é o primeiro a definir com exatidão o entusiasmo como a divina mania, dissimulando-a daquela simplesmente patológica (Fedro 265 a) e, ao contrário, considerando-a na origem dos maiores bens humanos (ibidem, 244 a). Dela usufruem apaixonados, profetas, místicos e poetas (ibidem, 244 b-c, 245 a, 265 b; Timeu 71 e-72 a), e sobretudo o filósofo, sempre que seja induzido pelo eros e pela beleza à reminiscência do verdadeiro (Fedro 249 e). O entusiasmo permite ao poeta dizer coisas belas, mas sem ciência e como «fora de si» (daí a ambígua avaliação platônica, frequentemente voltada ironicamente a estigmatizar a falsidade da mensagem poética) (Leis 719 c), vinculando a si magneticamente o rapsodo e os seus eventuais ouvintes: «só a Musa forma os inspirados; e através destes constitui-se uma cadeia de outros, invadidos por divina inspiração» (Íon 533 e). Por isso a «poesia do sábio será ofuscada por aquela dos poetas em delírio», «inspirados e possuídos pela divindade», «intérpretes dos deuses, possuídos cada um por aquele certo deus que os inspira», a ponto de serem incapazes de explicar as suas próprias palavras (Fedro 245 a; Íon 533 e, 534 e; Timeu 72 a).
Justamente esta presença do entusiasmo (muito mais sobriamente reconhecida também por Aristóteles, Poética 1455 a) faz da poesia como inspiração algo superior à arte como perícia técnico-artesanal ou versificação: um critério axiológico que está presente em toda a antiguidade tardia (estendido depois às artes figurativas) e encontra uma ulterior caução especulativa na apologia da EMBRIAGUEZ [v.] erótico-contemplativa (Plotino, Enéadas VI, 7, 35) e do «sopro entusiástico» sobre o qual repousa a arte (Pseudo-Longino, Do Sublime, VIII, 4).
Tornado um lugar-comum na Idade Média, que recorre a ele também para defender o caráter inspirado da escritura, tal critério, calada a ironia implícita na definição platônica, encontra a sua máxima valorização psicagógico-educativa no Renascimento, sob a forma do furor poeticus e do horaciano ENGENHO [v.] (entre outros, G.C. Scaligero, F. Patrizi, Bruno). Obviamente desvalorizado pelo racionalismo moderno (Descartes, Leibniz, Locke), o princípio do entusiasmo sobrevive, no século XVIII, nas reflexões sobre o GÊNIO [v.] e a FANTASIA [v.] da estética italiana (por exemplo no «furor poético» de L.A. Muratori, Della forza della fantasia umana, 1745, como no «delírio» de G.V. Gravina, Della ragion poetica, 1708, in Id., Scritti critici) e sobretudo na decisão fundamental com a qual Shaftesbury (A Letter Concerning Enthusiasm, 1708) coloca o sentimento do entusiasmo nobre, distinto da sua forma degenerada (fanatismo supersticioso), na base da «segunda criação» à qual chegam o poeta, a cultura e a moralidade.
A escolha de circunscrever ao âmbito estético a positividade do entusiasmo (assim também Voltaire, Dicionário Filosófico, 1765) reencontra-se também em Kant, para quem o entusiasmo, distinto como indispensável incitamento moral-religioso do fanatismo qual presumida comunhão direta com o transcendente (Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime, p. 339, nota), é sobretudo uma modalidade do SUBLIME [v.], ou seja, uma «ideia do bem conjunta com um afeto», uma «tensão das forças produzida por ideias, as quais dão ao ânimo um ímpeto de longe mais potente e durável do que o impulso que deriva de representações sensíveis» (Crítica da Faculdade do Juízo, § 29, Obs. ger.).
O entusiasmo encontra, de todo modo, a sua suprema valorização no quadro da retomada romântica do topos renascentista do artista como alter deus, tanto pela sua intrinsecidade ao caráter «sentimental» do idealista (Schiller) e à ironia do gênio (Fr. Schlegel, Fragmentos, p. 11: «existem poesias antigas e modernas que respiram continuamente [...] o divino sopro da ironia»), quanto na visão schellinghiana da arte como pati Deum, involuntária harmonia de consciente e inconsciente, infinidade de sentido cujo verdadeiro sujeito é o absoluto tornado manifesto no artista (Sistema do Idealismo Transcendental, p. 293), e por último no DIONISÍACO [v.] nietzschiano.
Excetuados E. Fink, para o qual o entusiasmo é a experiência do divino que preside à arte, religião e filosofia (Vom Wesen des Enthusiasmus, 1947), e mais recentemente Lyotard, que considera o entusiasmo em relação ao interesse filosófico e artístico pelo irrepresentável (O Entusiasmo, 1986), pode-se dizer que o entusiasmo seja um tema escassamente recebido na estética do século XX.
Bibliografia: E. Kris, O. Kurz, Die Legende vom Künstler (1934) [trad. it. La leggenda dell'artista, Einaudi, Torino 1980; trad. pt. A Lenda do Artista]; A. Gellhaus, Enthusiasmus und Kalkül. Reflexionen über den Ursprung der Dichtung, Fink, München 1995; G. Giraldi, La gnoseologia del sentimento, Gheroni, Torino 1957; C. Le Chevalier, L’enthousiasme et la ferveur, Montaigne, Paris 1964; F.-J. Meissner, Wortgeschichtliche Untersuchungen im Umkreis von französichen Enthousiasme und Genie, Droz, Genève 1979.
Tonino Griffero