(ingl. aura, fr. aura, al. Aura)

Com ‘aura’ (do lat. aura que vem do gr. àura ‘sopro’) entende-se o conjunto dos caracteres de autenticidade, autoridade e unicidade das obras de arte tradicionais. Nesta acepção, o termo foi adotado pela primeira vez por W. Benjamin (1892-1940) em Pequena História da Fotografia (1931) e, mais extensamente, no ensaio A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica (1936).

Tendo se aproximado do marxismo, Benjamin nega à obra de arte qualquer autonomia de princípio. A «aparência» de tal autonomia deriva para a obra do fato de esta ter sido sempre instrumento de culto (que é «o modo originário de articulação da obra de arte dentro do contexto da tradição»), primeiro mágico, depois religioso. Apesar da progressiva secularização do seu valor de culto, somente a partir da segunda metade do século XIX modificam-se os «pressupostos sociais» da obra de arte: não mais o ritual, mas a «práxis política», marcada pela emergência das massas e pela reprodução técnica. Nos casos exemplares da fotografia e do cinema, a reprodução torna-se indistinguível da produção, minando assim a oposição original/cópia.

Fundada, de fato, no «hic et nunc do original», que constituía o «conceito da sua autenticidade» e o pressuposto da autoridade da obra, a aura é definida como «uma aparição única de uma distância, por mais próxima que possa estar», coincidindo precisamente com a substancial inaproximabilidade do objeto de culto. A reprodutibilidade técnica destrói esta distância aproximando a obra de arte das massas. Consequentemente, a recepção não requer mais a atenção «contemplativa», «óptica», reservada à obra aurática, mas ocorre na «distração», nos «olhares ocasionais» que geram um «hábito», mais «tátil» do que «óptico» — como, tipicamente, no caso da arquitetura e, ainda, do cinema.

O público do cinema encarna não só a aproximação da arte às massas (todos se tornam «semiespecialistas»), e com isso a destruição «catártica» da «tradicional herança cultural», mas também este novo modo de fruir a obra: «o público é um examinador, mas um examinador distraído». Da destruição da aura, que Benjamin, salvo alguma ambiguidade, avalia positivamente, o fascismo aproveitaria para estetizar a política: uma tendência à qual «o comunismo responde com a politização da arte».

Inextricavelmente ligada à experiência das vanguardas, a reflexão sobre a perda da aura da obra de arte é retomada hoje sobretudo na tradição da HERMENÊUTICA [v.], onde se pretenda criticar as pretensões de autonomia da obra de arte, reconduzindo-a a religião secularizada, ou promovendo a ideia de uma esteticidade difusa, na qual a arte reencontraria uma função social de outro modo congelada no museu.

Bibliografia: D. Hart, M. Grzimek, Aura und Aktualität als ästhetische Begriffe, in AA.VV., W. Benjamin, Zeitgenosse der Moderne, Scriptor, Kronberg/Ts. 1976, pp. 110-45.

Stefano Velotti