(gr. λόγος; lat Ratio; in. Reason; fr. Raison; al. Vernunft; it. Ragione).

Este termo tem os seguintes significados fundamentais:

1º Referencial de orientação do homem em todos os campos em que seja possível a indagação ou a investigação. Nesse sentido, dizemos que a razão é uma "faculdade" própria do homem, que o distingue dos animais.

2º Fundamento ou razão de ser. Visto que a razão de ser de uma coisa é sua essência necessária ou substância expressa na definição, assume-se às vezes por "razão" a própria substância ou a sua definição. Este é um significado frequente na filosofia aristotélica ou nas correntes nela inspiradas. Quando a isso, v. ?ESSÊNCIA; ?FUNDAMENTO; ?FORMA; SUBSTÂNCIA.

3º Argumento ou prova. Nesse sentido dizemos: "Ele expôs suas razões" ou "É preciso ouvir as razões do adversário". A esse significado refere-se também a expressão "Ter razão", que significa ter argumentos ou provas suficientes, portanto, estar com a verdade. Quanto a esse significado v. ARGUMENTO; ?PROVA.

4º Relação, no sentido matemático. Nesse sentido fala-se também em "razão direta" ou "razão inversa" (em inglês o termo empregado nesse caso é ratio). Quanto a esse significado, v. RELAÇÃO.

No significado de referencial da conduta humana no mundo, a razão pode ser entendida em dois significados subordinados: A) como faculdade orientadora geral; B ) como procedimento específico de conhecimento.

A)

Este é o sentido fundamental, do qual a palavra extraiu a potência de significado que a transformou, há séculos, no emblema da livre investigação. A razão é a força que liberta dos preconceitos, do mito, das opiniões enraizadas mas falsas e das aparências, permitindo estabelecer um critério universal ou comum para a conduta do homem em todos os campos. Por outro lado, como orientador tipicamente humano, a razão é a força que possibilita a libertação dos apetites que o homem tem em comum com os animais, submetendo-os a controle e mantendo-os na justa medida. Esta é a dupla função atribuída à razão desde os primórdios da filosofia ocidental. A polêmica de Heráclito e Parmênides contra as opiniões da maioria, ou seja, contra as crenças discordantes e falazes, foi realizada em nome da razão, que deve ser o único critério orientador de todos os homens. Heráclito diz: "É preciso seguir o que é universal, comum a todos; e só a razão é universal. No entanto. a maioria vive como se cada um tivesse uma mente particular" (Fr. 2, Diels). E Parmênides: "Afasta o pensamento dessa via de investigação e não permitas que te levem para ela o costume de guiar-se por um olho que não vê, por um ouvido que ressoa, e pela palavra: em vez disso, julga com a razão" (Fr. 1, 33-37, Diels). Platão e Aristóteles, por outro lado, opõem a razão à sensibilidade, que é fonte das crenças comuns (PLATÃO, Fedro, 83a; ARISTÓTELES, Met., I, 1, 980 b 26), e aos apetites que o homem tem em comum com os animais (PLATÃO, Tim., 70a; ARISTÓTELES, Et. nic., I, 13, 1102 b, 15). Em ambos os casos, razão tem, ao mesmo tempo, função negativa e positiva: negativa em relação às crenças infundadas e aos apetites animais; positiva no sentido de dirigir as atividades humanas de maneira uniforme e constante. Mas foi principalmente com os estóicos que prevaleceu a doutrina da razão como único guia dos homens. Para eles, havia uma espécie de divisão simétrica entre os animais e os homens: os animais são guiados pelo instinto, que os leva a conservar-se e a procurar o que é vantajoso; aos homens foi dado o guia mais perfeito, que é a razão; desse modo, para eles, viver segundo a natureza significa viver segundo a razão (DIÓG. L., VII, 1, 15-86). Esses conceitos constituíram um dos eixos da cultura clássica. Cícero dizia: "A razão, única diferença que nos distingue do bruto, por meio da qual podemos conjecturar, argumentar, rebater, discutir, levar a termo e concluir, certamente é comum a todos; diferente em termos de preparação, mas igual quanto a ser faculdade de aprender" (De leg., I, 10, 30). Sêneca exaltava a razão por sua imutabilidade e universalidade: "A razão é imutável e firme no seu juízo porque não é escrava, mas senhora, dos sentidos. A razão é igual à razão assim como o justo ao justo; portanto também a virtude é igual à virtude porque a virtude outra coisa não é senão a reta razão." (Ep., 66). Deste ponto de vista também a metafísica estóica da razão, para a qual ela é — como diz o próprio Sêneca (ibid.) — "uma parte do espírito divino infundida no corpo do homem", não nega sua autonomia, mas, ao contrário, exalta-a e confirma-a. Certamente foi nesses conceitos que Agostinho se inspirou ao fazer o elogia da razão, que constitui os últimos capítulos de De ordine: "A razão é o movimento da mente que pode distinguir e correlacionar tudo o que se aprende" (De ord., II, 11, 30). É a força criadora do mundo humano: inventou a linguagem, a escrita, o cálculo, as artes, as ciências; é o que de imortal existe no homem (ibid., II, 19, 50). O entusiasmo de Agostinho pela razão se explica facilmente: para ele, a vida é busca, e a razão é princípio que institui e dirige a busca, tornando-a fecunda.

No entanto, o neoplatonismo já subordinara a razão ao intelecto, considerando-o superior a razão porque dotado do caráter intuitivo ou imediato que o transforma na visão direta da verdade. Segundo Plotino, a razão emana do intelecto, "que está presente em todas as coisas que são" (Enn., III, 2, 2). Em outros termos, ela é função formadora e plasmadora do intelecto; para dispor todas as coisas do mundo (boas e más) em sua ordem apropriada, ela deve adaptar-se à matéria (ibid., III, 2, 11-12). Nesse sentido, a razão é a técnica da criação e do governo do mundo, pois graças a ela os seres criados não se destroem entre si, mas concordam e combinam-se da melhor maneira. Plotino diz: "Graças à razão, cada ser age ou sofre ações segundo necessidades, e não ao acaso e desordenadamente" (ibid., II, 3, 16). Esse conceito de superioridade do intelecto foi herdado pela escolástica medieval. Razão e intelecto são identificados no significado geral de princípio orientador (cf., p. ex., TOMÁS DE AQUINO, S. Th., I, q. 29, a. 3, ad. 4º; q. 79, a. 8). Mas depois a razão é subordinada ao intelecto por seu caráter discursivo, que parece inferior ao caráter intuitivo daquele (v. adiante). Mais tarde, o próprio Bacon considerava a razão como uma atividade especial do intelecto (ao lado da memória e da fantasia), mais precisamente a função cuja tarefa é dividir e compor as noções abstratas "segundo a lei da natureza e a evidência das próprias coisas" (De augm. scient., II, 1). Assim, é so com Descartes que a razão volta a ser o guia fundamental do homem.

Identificando razão e bom sendo, Descartes restabelece o conceito clássico de razão e com base nele formula o problema novo do método. "A capacidade de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso, que recebe o nome de bom senso ou razão, é por natureza igual em todos os homens; portanto, a disparidade de nossas opiniões não provém do fato de que umas são mais racionais que as outras, mas apenas de conduzirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes, sem levas as mesmas coisas em consideração. Não baste ter o espírito são; o principal é aplicá-lo bem" (Discours, I). Estas palavras famosas reintroduziram no mundo moderno o conceito antigo (e especialmente estóico) de razão como guia de todo o gênero humano. Assim, Espinosa surpreendia-se ao ver que às vezes queriam "submeter a razão, máximo dom de Deus e luz realmente divina, às palavras", não se considerando crime "falar indignamente desse verdadeiro testemunho do Verbo de Deus, que é a razão, declarando-a corrupta, cega e impura" (Tract. theologico-politicus, cap. 15). Leibniz, por sua vez, insistia na velha tese de que a razão pertence ao homem e somente ao homem (Nouv. ess., IV, 17, 2), e Locke atribuía à razão uma determinação fundamental, que constitui a única inovação autêntica do conceito moderno em relação ao clássico: o fato de a razão ser instrumento do conhecimento provável, e não apenas do conhecimento indubitável. Locke dizia: "Assim como a razão percebe a correlação necessária e indubitável que as ideias ou provas têm entre si, em cada grau de qualquer demonstração que produza conhecimento, de maneira análoga também percebe a correlação provável entre as ideias ou provas em qualquer grau de uma demonstração à qual julgue ser devido o assentimento" (Ensaio, IV, 17, 2). Com essa determinação, a razão era qualificada segundo a função que lhe era atribuída pelo iluminismo setecentista: princípio de crítica radical da tradição e de renovação igualmente radical do homem. Kant tentava realizar plenamente o ideal iluminista da razão. Por um lado, identificava-a com a própria liberdade de crítica ("Sobre a liberdade de crítica repousa a existência da razão, que não tem autoridade ditatorial, mas cuja sentença nunca deixa de ser o acordo dos cidadãos livres, cada um dos quais deve poder formular sem obstáculos as suas dúvidas e até seu veto") e por outo pretendia levar a razão diante de seu próprio tribunal e instaurar a "crítica da razão pura", que "não se imiscui nas controvérsias imediatamente referentes aos objetos, mas é instituída para determinar e julgar os direitos da razão em geral" (Crít. R. Pura, Teoria transcendental do método, cap. I, seç. II). Está de acordo com o conceito iluminista de razão a definição de Whitehead: "a função da razão é promover a arte da vida", no sentido de que a razão teria a tarefa de agir sobre o ambiente para promover formas de vida mais satisfatórias e perfeitas (The Function of Reason, 1929, cap. I; trad. it. Cafaro, pp. 6 ss.). No entando, aquilo que à primeira vista parece ser a maior garantia da eficácia da razão — crer que ela habita a realidade e a domina, de tal modo que não há realidade não racional, nem racionalidade não real — na verdade constitui o abandono da função diretiva da razão. Hegel, que afirmou com mais rigor esse ponto de vista, também negou a função diretiva da razão: "O que está entre a razão como espírito autoconsciente e a razão como realidade presente, o que diferencia aquela desta e não permite que se encontre satisfação nesta, é o estorvo de alguma abstração que se não libertou e não se transformou em conceito. Reconhecer a razão no presente e, assim, fruí-lo é o reconhecimento racional que reconcilia com a realidade, o que a filosofia só concede àqueles que advertiram toda a exigência de compreender" (Fil. do dir., Pref.; trad. it., Messineo, p. 17). Isso significa que a razão não guia, mas chega post factum a compreender a realidade, a justificá-la.

B )

O reconhecimento da razão como guia constante, uniforme e (às vezes) infalível de todos os homens, em todos os campos da atividade destes, é acompanhado na maioria das vezes pela determinação de um procedimento específico no qual se reconhece a atuação própria da razão. As determinações já concebidas sobre a técnica específica da razão podem ser resumidas nos seguintes conceitos fundamentais: a) discurso; b) autoconsciência; c) autorevelação; d) tautologia.

a)

O procedimento discursivo é a técnica mais frequentemente considerada própria da razão. A ele Platão recorre para marcar a diferença entre a opinião verdadeira e a ciência: as opiniões podem dirigir a ação tão bem quanto a ciência, mas tendem a fugir para todos os lados, como as estátuas de Dédalo, enquanto não "são amarradas por um raciocínio causal" (Men., 98 a). Esse atamento ou essa conexão é a técnica discursiva. Técnica discursiva é todo o procedimento silogístico de Aristóteles, à parte a determinação dos primeiros princípios, que são intuídos pelo intelecto; discursivas são a silogística necessitante e a dialética (An. post, I, 33, 89 b 7; Et nic., VI, 11, 1143 b 1). No mesmo sentido, os estóicos definiam a razão como "um sistema de premissas e conclusões" (DIÓG. L., VII, 1, 45). A função frequentemente atribuída à razão (distinguir, correlacionar, comparar etc. [v. os trechos de Cícero e Agostinho citados em A]) não passa de expressão do mesmo procedimento. Tomás de Aquino dizia: "Os homens chegam a conhecer a verdade inteligível procedendo de uma coisa à outra; por isso são chamados de racionais. É evidente que raciocinar está para entender assim como mover-se está para ficar parado, ou adquirir para ter: destas coisas, a primeira é própria do imperfeito; a segunda, do perfeito" (S. Th., I, q. 79, a. 8). No começo da Idade Moderna Descartes moldava-se no mesmo procedimento para determinar suas regras do método: "Os longos encadeamentos de razões, todas simples e fáceis, de que os geômetras costumam lançar mão para chegar às suas demonstrações mais difíceis, deram-me a oportunidade de imaginar que todas as coisas que podem chegar ao conhecimento dos homens correlacionam-se da mesma maneira" (Discours, II). A Lógica de Port-Royal expressava de maneira diferente os mesmos conceitos (ARNAULD, Log., III, 1) em que também Locke baseava sua doutrina da razão: "Na razão podemos considerar estes quatro graus: o primeiro e mais elevado consiste em achar e descobrir as verdades; o segundo, em dispô-las de maneira regular e metódica, arranjando-as numa ordem clara e justa, de tal modo que sua força e suas interconexões sejam percebidas com evidência e facilidade; o terceiro, em perceber tais conexões; o quarto, em extrair uma conclusão correta" (Ensaio, IV, 17, 3). A distinção que Espinosa estabelecia entre o segundo gênero de conhecimento, que ele chamava de razão, e o terceiro, que chamava de ciência intuitiva, é a distinção tradicional entre o procedimento discursivo e o intelecto intuitivo (Et., II, 40, esc. 2). E Leibniz só fazia encontrar a expressão mais simples para o mesmo conceito de razão ao afirmar que a razão é "a concatenação das verdades" (Op., ed. Erdmann, p. 479, 393). Wolff dava o nome de "juízo discursivo" à operação da razão, porquanto consiste na correlação das proposições (Log., §§ 50-1).

O conceito de razão como discurso entra em crise com Kant, que, ao mesmo tempo em que atribui caráter discursivo a toda a atividade cognitiva humana, considerando que apenas Deus possui o conhecimento intuitivo (v. ?DISCURSIVO), distingue nitidamente razão e intelecto, apesar do caráter discursivo comum aos dois. A razão é a faculdade "que produz os conceitos por si"; portanto, pode ser chamada de faculdade dos princípios. Mas os conceitos que a razão produz não têm base na experiência; por isso, são simplesmente fictícios. "Se o intelecto pode ser uma faculdade da unificação dos fenômenos por meio de regras, a razão é a faculdade de unificar as regras do intelecto por meio de princípios. Por isso, ela nunca se dirige imediatamente à experiência ou a um objeto qualquer, mas ao intelecto, para, por meio de conceitos, imprimir aos múltiplos conhecimentos deste uma unidade a priori; essa unidade, que pode ser chamada de racional, é de espécie totalmente diferente da unidade que pode ser produzida pelo intelecto" (Crít. R. Pura, Dialética transcendental, Intr. II, a). Assim como o intelecto, a razão procede discursivamente, mas considera os procedimentos discursivos do intelecto como realizados em ideias de totalidade e unidade (alma, mundo, Deus), que são perfeitas, mas não podem ser confrontadas com a experiência; portanto, são puramente fictícias e apenas fonte de raciocínios dialéticos, ou seja, sofísticos (v. ?IDEIA; ANTINOMIAS KANTIANAS). O resultado dessa distinção kantiana é que o procedimento discursivo válido é apenas o do intelecto, cujos conceitos derivam imediatamente da experiência, e que o procedimento discursivo racional, com suas pretensões totalitárias, só dá ensejo a noções fictícias. Portanto, depois de Kant fica difícil manter a definição da razão como técnica discursiva.

O conceito de razão como discurso permite a consideração formal do procedimento racional: possibilita uma lógica, que é na realidade a lógica tradicional na forma elaborada elos filósofos desde Aristóteles até o fim do século XIX. Entendida neste sentido, a lógica é ao mesmo tempo descritiva e normativa: descritiva dos procedimentos próprios da razão, normativa no sentido de que essa mesma descrição vale como regra para o uso correto da razão. Nesse sentido, a lógica tradicional era definida exatamente como "arte de raciocinar".

b)

O conceito da razão como autoconsciência remonta a Fichte. Caracteriza-se pela identificação entre razão e realidade, e pressupõe o conceito de razão como discurso. Como discurso, a razão é dedução; como dedução, tem um único princípio, que é o Eu. Do Eu deriva, com necessidade infalível, todo o sistema do saber, que é ao mesmo tempo o sistema da realidade. "Fonte de toda a realidade é o Eu. Somente com o Eu e pelo Eu é dado o conceito de realidade. Mas o Eu é porque se põe e põe-se porque é. Portanto, pôr-se e ser são uma só e mesma coisa" (Wissenschaftslehre, 1794, § 4, C; trad. it., p. 92). As equações em que essa doutrina se baseia são as seguintes: razão = saber dedutiva; saber dedutivo = realidade; realidade + saber = autoconsciência. Schelling expressava essas mesmas equações ao afirmar: "A natureza alcança seu fim mais elevado, que é tornar-se inteiramente objeto de si mesma, com a última e mais elevada reflexão, que nada mais é que o homem ou, de modo mais geral, aquilo que chamamos de razão. Temos assim, pela primeira vez, o retorno completo da natureza a si mesma, estando evidente que a natureza é originariamente idêntica àquilo que em nós se revela como princípio inteligente e consciente (System des transzendentalen Idealismus, 1800, Intr. § 1; trad. it., p. 9). E Hegel expressava o mesmo conceito da seguinte maneira: "A autoconsciência, ou seja, a certeza de que suas determinações são tão objetivas — determinação da essência das coisas — quanto seus próprios pensamentos, é a razão; esta, por ser tal identidade, é não só a substância absoluta, mas também a verdade como saber" (Enc., § 439). Em outras palavras, para Hegel a razão é a identidade da autoconsciência como pensamento com aquelas suas manifestações ou determinações que são as coisas ou os acontecimentos; é a identidade de pensamento e realidade. De forma epigráfica, esse conceito era expresso por Hegel da seguinte maneira: "a razão é a certeza da consciência de ser realidade: assim o idealismo expressa o conceito de razão" (Phänomen. des Geistes, I, V, I; trad. it., p. 209). É óbvio que, desse ponto de vista, a razão não é discursiva no sentido de concatenar expressões linguísticas e inferir uma de outra por meio de regras determinadas ou determináveis, mas é a inferência (suposta) das determinações do pensamento e da realidade, umas das outras, num processo único cuja perfeita "necessidade" é afirmada. Este ponto de vista impossibilita a consideração formal das técnicas racionais, que está ligada à concepção a) de razão. Como autoconsciência, a razão nunca é formal: é sempre idêntica à realidade. Hegel diz: "O intelecto determina e mantém as determinações. A razão é negativa e dialética porque resolve em nada as determinações do intelecto. Ela é positiva porque gera o universal e nele compreende o particular" (Wissenschaft der Logic, Pref. da 1ª ed.; trad. it., p. 5). Por "compreender o particular" entende-se que compreende as coisas ou as determinações reais que, em última análise, nada mais são que suas manifestações particulares. A negação da lógica formal é parte integrante desse ponto de vista; por isso, retorna sempre que ele aprece. Basta lembrar que Croce rejeitava a lógica formal baseada no mesmo pressuposto hegeliano de identidade entre razão e realidade, expresso na forma de identidade entre filosofia e história: "A riqueza da realidade, dos fatos, da experiência, que pareceria subtraída ao conceito puro, portanto à filosofia, em virtude da declarada distância das ciências empíricas, é-lhe devolvida e reconhecida; e não mais na forma diminuída e imprópria do empirismo, mas sim de modo total e integral. Isso se realiza pela conjunção, que é unidade, de filosofia e história" (Lógica, 1920, p. 392).

c)

O conceito de razão como auto-revelação ou evidência foi estabelecido por Husserl. Para ele, a razão é o manifestar-se fenomenológico dos objetos (que podem ser coisas ou essências), seja esse manifestar-se dotado de caráter necessário ou apodítico, seja de caráter assertório. Husserl diz: "A visão por assim dizer assertória de uma individualidade, como por exemplo a percepção de uma coisa ou de um estado de fato individual, distingue-se em seu caráter racional da visão apodítica da compreensão de uma essência ou de uma relação de essências" (Ideen, I, § 137). O termo mais abrangente, ou seja, o conceito que compreende tanto a visão assertória — que é dada de fato, mas pode ser diferente —, quanto a visão apodítica — que é necessária — é a consciência racional, que Husserl chama também, em geral, de evidência (ibid., 137). Desse ponto de vista, o caráter fundamental da racionalidade é a validade do ato de pôr: se o objeto é verdadeiramente posto, o ato é válido, e a posição tem caráter racional (ibid., § 139). Mas aquilo que do ponto de vista do ato noético é a posição do objeto, do ponto de vista objetivo é a evidenciação do objeto, seu dar-se ou seu revelar-se (ibid., § 139). E como, em qualquer esfera do ser, o modo de auto-revelar-se dos objetos é diferente, todo tipo de realidade traz consigo "uma nova doutrina concreta da razão" (ibid., § 152). Esse conceito de razão como auto-revelação ou auto-evidência é aceito integralmente por Heidegger: "Exatamente porque a função do logos é um puro deixar ver algo, deixar intuir o ente, logos pode significar razão" (Sein und Zeit, § 7, B). Esse mesmo conceito é apresentado de forma mais mítica por Jaspers: "A razão não é uma fonte originária propriamente dita, mas, por ser conexão de tudo, é semelhante a uma fonte originária na qual vêm à luz todas as fontes" (Vernunft und Existenz, 1935, II, 5; trad. it., p. 50). A direção para a qual a razão se move é a infinita clareza, e aquilo que nela tenta aclarar-se é a existência: "a existência alcança a clareza somente por meio da razão: a razão só tem conteúdo em virtude da existência" (ibid., II, 6; p. 53). E óbvio que, mesmo deste ponto de vista, é impossível a consideração formal do procedimento racional. A razão nunca é formal porque é sempre preenchida pelo conteúdo que nela se manifesta evidente ou se esclarece.

d)

O conceito de razão como tautologia tem origem em Hume, que foi o primeiro a fazer a distinção nítida entre "relações de ideias" e "coisas de fato". "À primeira classe pertencem ciências como a geometria, a álgebra e a aritmética; em suam, toda proposição intuitiva ou demonstrativamente certa [no sentido lockiano]. (...) As proposições dessa classe podem ser descobertas com uma pura operação do pensamento, e não dependem de coisas que existem em algum lugar do universo" (Inq. Conc. Underst. IV, 1). Na verdade, Hume não afirmou explicitamente o caráter tautológico ou (para usar um termo kantiano) analítico das proposições que expressam simples relações das ideias entre si, mas de algum modo o pressupôs quando insistiu no fato de que as proposições que expressam coisas de fato não são logicamente deriváveis uma da outra. Todavia, para formar a concepção de razão em foco interveio também outro componente conceptual, exposto pela primeira vez por Hobbes: a redução da razão a cálculo das proposições verbais. Hobbes disse: "A razão nada mais é que o cálculo — a adição e a subtração — das consequências dos nomes gerais usados para caracterizar e significar nossos pensamentos: para caracterizá-los quando calculamos para nós mesmos, para significá-los quando demonstramos ou comprovamos nossos cálculos para os outros homens" (Leviath., I, 5). Esta ideia de Hobbes concretizou-se apenas a partir de meados do século XIX, com a fundação da lógica matemática por parte de G. Boole (Laws of Thought, 1854), que foi o primeiro a mostrar a impossibilidade de reduzir o raciocínio matemático às formas de raciocínio descritas por Aristóteles, dando início a uma lógica estreitamente ligada aos métodos de cálculo. O sucesso ulterior dessa lógica, principalmente graças a Frege e a Russel (v. ?LÓGICA), constitui um antecedente histórico indispensável do conceito de razão em exame. Que tal procedimento tivesse caráter tautológico só ficou claro mais tarde, no Círculo de Viena, com a obra de Wittgenstein (1922). O fundamento dessa obra é a redução da razão à linguagem. Wittgenstein afirmava que "as proposições da lógica são tautológicas" (Tractatus, 6.1), que "nada dizem (são as proposições analíticas)" (ibid., 6.11), e que "são sempre falsas as teorias que mostram uma proposição da lógica provida de conteúdo" (ibid., 6.111). E acrescentava: "A característica especial das proposições lógicas é que simplesmente pelo símbolo se pode reconhecer que são verdadeiras, e este fato encerra em si toda a filosofia da lógica. Analogamente, um dos fatos mais importantes é que a verdade ou falsidade das proposições não lógicas não pode ser reconhecida somente a partir da proposição" (Tractatus, 6.113). Assim, o procedimento racional julgado característico das disciplinas às quais Hume atribuía por objeto apenas as relações de ideias (lógica e matemática) foi reduzido à tautologia. Wittgenstein diz que as proposições da lógica, assim como as da matemática (ibid., 6.21), nada dizem. No entanto, isso não quer dizer que são inúteis, por revelam a identidade de significado existente sob formas proposicionais diferentes e podem, portanto, ser usadas para a transformação de uma proposição numa outra que tenha o mesmo significado, mas forma diferente. Contudo, nenhuma das proposições da lógica e da matemática fornece qualquer informação acerca do mundo. A redução da razão a procedimento tautológico tem, pois, os seguintes resultados: 1º são racionais, no sentido próprio do termo, somento os procedimentos formais da lógica e da matemática (como parte ou todo da lógica); por isso, racionalidade e logicidade coincidem; 2º racionalidade e logicidade nada têm a ver com realidade. Portanto, esse conceito de razão constitui a inversão simétrica do conceito b), que, ao contrário, identificou racionalidade e realidade, e opôs ambas as concepções à formalidade lógica pura, declarada sem valor (cf. sobre a concepção em exame, R. VON MISES, Kleines Lehrbuch des Positivismus, 1939, § 10; trad. it., pp. 164 ss.; J. R. WEINBERG, An Examination of Logical Positivism, 1950, cap. II; trad. it., pp. 86 ss.). Quanto aos modelos seguintes de razão e racionalidade, v. ?RACIONALIDADE.

[N. A]