Bem

Bem (gr. \dot{\alpha}\gamma\alpha\theta\acute{o}\nu ; lat. bonum; ingl. good; franc. bien; alem. Gut; ital. bene). Em geral, tudo o que possui valor, preço, dignidade, mérito, sob qualquer título que o possua. B., com efeito, é a palavra tradicional para indicar o que em linguagem moderna se denomina valor (veja ?valor). Um B. é um livro, um cavalo, um alimento, qualquer coisa que se possa vender ou comprar; um B. é também a beleza ou a dignidade, a virtude humana ou uma acção virtuosa em particular, um comportamento aprovável. De acordo com esta extrema variedade de significados, o adjectivo bueno (bom) tem igual variedade de aplicações. Podemos falar de "uma boa chave de fendas" ou de "um bom automóvel", como também de "uma boa acção" ou de "uma pessoa boa". Assim mesmo dizemos "um bom prato" para indicar alguma coisa que coincide com o nosso gosto ou "um bom quadro" para indicar um quadro logrado.

Nesta esfera de significado geral, de acordo com a qual a palavra se refere a tudo o que tem um valor qualquer, é possível recortar a esfera do significado específico, de acordo com o qual a palavra se refere particularmente ao domínio da moralidade, ou seja, dos mores, da conduta, dos comportamentos humanos intersubjectivos, e designa, portanto, o valor específico de tais comportamentos. Com este segundo significado, ou seja, como B. moral, o B. é objecto da ética, e o registo dos seus diferentes significados históricos deve ser feito, precisamente, com referência à voz ética (veja ?etica). Neste lugar devemos, portanto, ocupar-nos da noção do B. só no primeiro sentido, é dizer, na sua acepção mais geral. Podemos agora distinguir dois pontos de vista fundamentais, que se cruzaram na história da filosofia: 1) a teoria metafísica, segundo a qual o B. é a realidade e justo a realidade perfeita ou suprema e é desejado como tal; 2) a teoria subjectiva, segundo a qual o B. é o desejado ou o que agrada, e é tal só nesta relação.

1) O modelo de todas as teorias metafísicas é a teoria de Platão, segundo a qual o B. é o que dá a verdade aos objectos cognoscíveis, o poder de conhecê-los ao homem, luz e beleza às coisas, etc.; numa palavra, é a fonte de todo o ser no homem e fora dele (Rep., VI, 508 e - 509 b). O B. é comparado por Platão com o sol, que dá aos objectos não só a possibilidade de serem vistos, mas também a de se gerarem, crescerem e nutrirem-se; e o mesmo que o sol que, apesar de ser a causa destas coisas, não é nenhuma delas, assim o B., fonte da verdade, do belo, da cognoscibilidade, etc., e, em geral, do ser, não é nenhuma destas coisas e acha-se fora delas (Ibid., 509 b). Em forma análoga, Plotino vê no B. a primeira hipóstase, ou seja, a origem da realidade, Deus mesmo, e considera-o como causa do ser e da ciência ao mesmo tempo (Enn., VI, 7, 16) e, em geral, de tudo o que é ou vale com um título qualquer (Ibid., V, 4, 1). Estas noções foram correntes na filosofia medieval, que identificou, segundo o exemplo neoplatónico, o B. com Deus mesmo, de maneira que pode denominar-se "bom" só aquilo que de algum modo é semelhante a Deus (Santo Tomás, S. Th., I, q. 6, a. 4).

O teorema característico desta concepção do B. é o que afirma a identidade do bom e do que existe. "Bonum e ens são a mesma coisa em realidade —diz Santo Tomás—, já que um e outro podem distinguir-se racionalmente. O B., com efeito, é o ente enquanto objecto de desejo, o que não é o ente" (S. Th., I, q. 5, a. 1). Portanto, "todo o ente, enquanto ente, é bom" (Ibid., I, q. 5, a. 3). Com efeito, todo o ente enquanto tal é em acto, e enquanto é em acto é perfeito, mas o perfeito é também apetecível e bom. Este teorema revela a natureza da concepção metafísica do B., cujo princípio é que o B. é apetecível só enquanto realidade perfeita ou perfeição real. Pode-se, portanto, reconhecer uma teoria metafísica do B. precisamente neste fragmento, que subordina a apetência à realidade e considera por último como realidade suprema o B. mesmo. Assim o faz Hegel, por exemplo, quando afirma que "a realidade efectiva coincide em si com o B." (Philosophische Propädeutick ["Propedêutica filosófica"], III, § 83); ou que o B. é "a liberdade realizada, a absoluta mira final do mundo" (Fil. do direito, § 129). Todas as formas de idealismo e de espiritualismo constituem outras tantas doutrinas metafísicas do B., já que todas identificam o B. com a realidade e, no limite, com a realidade suprema; assim o faz, por exemplo, Rosmini ao identificar o ser e o bem (Principi della scienza morale, ed. nac., p. 78), o mesmo que Gentile, ao identificar o B. com o espírito em acto: "O B. ou valor moral não é outra coisa do que a realidade espiritual na sua idealidade, como produção de si mesma ou liberdade" (Lógica, I, p. 110). Algumas filosofias contemporâneas que preferem falar do valor mais do que do B., considerando o valor como realidade absoluta e última, inscrevem-se na mesma concepção tradicional do bem.

2) Por outro lado, a teoria subjectivista do B. é o inverso simétrico da teoria metafísica. Para ela, o B. não é desejado porque seja perfeição ou realidade mas sim que é perfeição e realidade porque é desejado. O ser desejado, ou apetecido, define o bem. Assim o definiu sempre Aristóteles (Ét. Nic., I, 1, 1094 a 3). Mas a doutrina não se apresenta nele sem conexões ou misturas com a doutrina oposta. Com efeito, quando deve determinar os critérios de preferência entre vários bens, recorre à noção metafísica de perfeição, ou seja, à noção que é o fundamento da teoria do bem oposta. Assim, por exemplo, diz que o que é B. absolutamente é mais desejável do que o que é um B. para alguém, por exemplo, o curar é preferível a sofrer uma operação cirúrgica; que o que é um B. por natureza, por exemplo, a justiça, é preferível ao que é B. por aquisição, por exemplo, o homem justo. E além disso "é mais desejável o que pertence a um objecto melhor e mais preciado; assim o que pertence à divindade é preferível ao que pertence ao homem e o que corresponde à alma ao que corresponde ao corpo" (Tóp., III, 1, 116 b 17). De tal maneira, Aristóteles delineia um sistema de preferências, que parece orientar-se pelo carácter de perfeição que objectivamente possuem os bens e que, portanto, se concilia mal com a definição do B. como objecto de desejo.

Esta definição tornou-se válida por primeira vez e em todo o seu rigor nos estoicos, que, com efeito, consideraram o B. exclusivamente como objecto de eleição obrigatória ou preferencial; e, portanto, foram também os primeiros a introduzir a noção de valor (veja ?valor) na ética. "Assim como é próprio do calor aquecer e não arrefecer, é próprio do B. beneficiar e não danar", diziam eles (Dióg. L., VII, 103). B. em sentido absoluto é somente o que é conforme à razão e, portanto, tem um valor em si; mas também são B., ainda quando subordinada ou mediatamente, as coisas que apelam à eleição e que enquanto tais têm valor, como o engenho, a arte, a vida, a saúde, a força, etc. (Ibid., 104-05; cf. Cic., De Fin., III, 6, 20). Esta tabela dos valores prescindia completamente da perfeição objectiva a que se referiam as tabelas de valores da concepção clássica grega.

Esquecida durante toda a Idade Média, a concepção subjectivista do B. retoma no Renascimento, com as alusões a uma ética do movimento (veja ética ?etica). Mas foi afirmada por Hobbes na sua forma mais decidida. "O que de algum modo —diz— é objecto de qualquer apetite ou desejo humano, é o que com respeito a ele se chama bom. E o objecto do seu ódio e aversão, mau; e do seu desprezo, vil, e inconsiderável ou indigno. Mas estas palavras de bom, mau e desprezível sempre se usam em relação com a pessoa que as utiliza. Não são sempre absolutamente tais, nem nenhuma regra de B. e de mal pode tomar-se da natureza dos objectos mesmos" (Leviath. I, 6). Spinoza aceitou com entusiasmo este ponto de vista. "Não nos esforçamos por nada, nem o queremos, apetecemos nem desejamos porque julguemos que é bom, mas sim que, pelo contrário, julgamos que algo é bom porque nos esforçamos por isso, o queremos, apetecemos e desejamos" (Eth., III, 9, scol.). E no Prefácio ao IV livro recalca: "Pelo que tange ao bom e ao mau, tampouco indicam nada positivo nas coisas, pelo menos consideradas em si mesmas, e não são senão modos de pensar ou noções que formamos porque comparamos as coisas umas com outras. Pois uma só e mesma coisa pode ser ao mesmo tempo boa e má, e também indiferente." A sua vez, Locke afirmou que "aquilo que tem a capacidade de nos produzir prazer é o que chamamos um B. e o que tem capacidade de nos produzir dor chamamos um mal" (Essay, II, 21, 42); definições que encontraram assentimento em Leibniz: "Divide-se o B. em honesto, prazenteiro e útil, mas no fundo creio que deve ser prazenteiro por si mesmo ou servir para algo que nos dê um sentimento de prazer; e, portanto, o B. é prazenteiro ou útil e o honesto mesmo consiste num prazer do espírito" (Nouv. Ess., II, 20, 2). Kant aceitou estas notas, agregando-lhes um elemento importante, isto é, a exigência de uma referência conceptual. "O B. —diz— é o que mediante a razão agrada pelo puro conceito. Denominamos boa para, a qualquer coisa (útil) quando agrada apenas como meio; à que agrada, em contrapartida, por si mesma, denominamos boa em si. Em ambas acha-se sempre implícito o conceito de uma finalidade, a relação da razão com a vontade (ao menos, possível) e, em consequência, o agradar fica ligado à existência de um objecto ou de uma acção, é dizer, a um interesse" (Crít. do Juízo, § 4). A presença do conceito ou da norma, é dizer, do fim para o qual tende a coisa ou ao que deve ajustar-se, respectivamente, é o que distingue o bom do prazenteiro. Kant anota que um alimento agradável, mesmo em caso de ser considerado como "bom", deve agradar também à razão, isto é, deve ser considerado com referência à finalidade da nutrição e da saúde corporal. No entanto, o agradável e o bom estão ligados, pelo facto de que ambos dependem, pelo seu objecto, do interesse e também "o que é B. absolutamente e sob todo o conceito, o B. moral, inclui o mais alto interesse. Já que o B. é o objecto da vontade, é dizer, de uma faculdade de desejar, determinada pela razão. Mas querer alguma coisa e encontrar prazer na sua existência, é dizer, tomar interesse por ela, resultam a mesma coisa" (Ibid., in fine). Neste sentido, o B. é o que se aprecia, se aprova e aquilo ao qual se reconhece "um valor objectivo" (Ibid., § 5). Deste modo, no seio mesmo da teoria subjectivista do bem, Kant fez valer a exigência objectiva que constituía a força da teoria metafísica. O bem, para Kant, não é tal senão pela sua relação com o homem, ou seja, em relação com um interesse que o homem tem na sua existência. Mas esta circunstância não o faz totalmente subjectivo, o que significa que não o identifica pura e simplesmente com o prazer, devido a que ao reconhecimento do B. está ligada a valoração conceptual da sua eficiência com referência a determinados fins, o que significa constituir o B. como "um valor objectivo".

Depois de Kant, a noção de valor tende a suplantar a noção de B. nas discussões morais e pode ser considerada como herdeira do conceito subjectivo de B., já que possui as suas mesmas relações sistemáticas. No terreno da noção de valor renascerá, no entanto, em forma apenas alterada, a alternativa entre uma concepção objectivista e uma concepção subjectivista, alternativa que ainda hoje constitui um dos temas fundamentais da discussão moral (veja valor ?valor).