Aposta
Aposta (ingl. wager; franc. pari; alem. Wette; ital. scomessa). Nome dado ao famoso argumento de Pascal a favor da fé. Já que não é possível demonstrar a existência de Deus, Pascal mostra que é conveniente apostar acerca da existência de Deus. "Vossa razão não recebe maior dano ao escolher uma coisa ou a outra, pois é necessário escolher. Eis aqui um ponto liquidado. Mas vossa beatitude? Pensemos no ganho e na perda apostando a cara ou coroa o sentido da existência de Deus. Valorizamos os dois casos: Se ganhais, ganhais tudo, se perdeis não perdeis nada. Apostai, portanto, acerca de sua existência, e sem duvidar" (Pensées, 233). Pascal acrescenta que uma vez decididos a apostar, será fácil crer, "fazendo tudo como se se cresse, tomando a água benta, fazendo dizer missas, etc. Isso os fará crer e os embrutecerá (abêtira) (Ibid.)". O argumento foi repetido por W. James em sua Vontade de crer (1897). James interpreta a passagem pascaliana no sentido de que é irracional correr o risco de perder a verdade, mesmo não incorrendo eventualmente em erro (The Will to Believe, cap. I).
O argumento pascaliano não é suscetível de muitas interpretações e todas as discussões em torno a ele tendem antes a defendê-lo ou a refutá-lo. É sobretudo desconcertante a expressão adotada por Pascal "os embrutecerá" (vous abêtira). E não faltou quem tenha tentado tirá-la do texto pascaliano, lendo em contrapartida alestira que significaria "renderá pronto proveito" (Gaillard, "Une nouvelle leçon d’un mot célèbre de Pascal", em Annales de l’Université de Grenoble, XXI, 13). Mas, na realidade, a expressão pascaliana não pretende reduzir a fé ao embrutecimento, mas sim refere-se a um dos pontos fundamentais da doutrina pascaliana, segundo a qual a fé deve investir não somente o espírito do homem, mas também a máquina, o autómata que está no homem (Pensées, 250), ou seja, o conjunto dos hábitos que fixam a própria fé e a subtraem da dúvida. O abêtira refere-se a este segundo aspeto, sem o qual a fé mesma é incompleta.