Abstração
Abstração (gr. $\dot{\alpha}\varphi\alpha\acute{\iota}\rho\varepsilon\sigma\iota\varsigma$; lat. abstractio; ingl. abstraction; franc. abstraction; alem. Abstraktion; ital. astrazione). Operação mediante a qual qualquer coisa é escolhida como objeto de percepção, atenção, observação, consideração, investigação, estudo, etc., e isolada de outras coisas com as quais se encontra numa relação qualquer. A A. tem dois aspectos: 1) isolar a coisa escolhida das outras com as quais se acha em relação (o abstraer de); 2) adotar como objeto específico de consideração aquele com que este fica isolado (A. selectiva ou rescisão). Estes dois significados já haviam sido distinguidos por Kant (Logik, § 6) que tentou, no entanto, reduzir a A. somente à primeira destas formas.
A A. é inerente a qualquer procedimento cognoscitivo e pode servir para descrever todo o procedimento da mesma natureza. Com esta finalidade foi utilizada desde a antiguidade. Aristóteles explica mediante a A. a formação das ciências teóricas, ou seja da matemática, da física e da filosofia pura. "O matemático —diz— despoja as coisas de todas as qualidades sensíveis (peso, leveza, dureza, etc.) e reduz-as à quantidade discreta e contínua; o físico prescinde de todas as determinações do ser que não se reduzam ao movimento. De análoga maneira o filósofo despoja o ser de todas as determinações particulares (quantidade, movimento, etc.) e limita-se a considerá-lo só enquanto ser" (Met., XI, 3, 1061 a 28 ss.). Segundo Aristóteles, a totalidade do procedimento cognoscitivo pode ser descrita pela A.: "O conhecimento sensível consiste, com efeito, em adquirir as formas sensíveis sem a matéria, como a cera adquire o cunho do selo sem o ferro ou o ouro de que é composto" (De An., II, 12, 424 a 18). E o conhecimento intelectual recebe as formas inteligíveis abstraindo-as das formas sensíveis nas quais estão presentes (Ibid, III, 7, 431 ss.). Santo Tomás reduz o conhecimento intelectual à operação da A., a qual é um abstrair a forma da matéria individual e de tal maneira pôr em evidência o universal do particular, a espécie inteligível das imagens singulares. Da mesma maneira como podemos considerar a cor de um fruto prescindindo do fruto, sem afirmar por isso que a cor esteja separada do fruto, podemos conhecer as formas ou espécies universais do homem, do cavalo, da pedra, etc., prescindindo dos princípios individuais a que vão unidas, embora sem pretender que existam separadas destes. Portanto, a A. não falsifica a realidade, mas apenas torna possível a consideração separada da forma e com isso o conhecimento intelectual humano (S. Th., I, q. 85, a. 1). Estes ou outros conceitos afins acham-se em toda a escolástica. A Lógica de Port Royal (I, 4) resumiu muito bem o pensamento da escolástica e a estreita relação do procedimento abstrativo com a natureza do homem, dizendo: "A limitação da nossa mente faz que não possamos compreender as coisas compostas, senão considerando-as nas suas partes e contemplando as diferentes faces que nos enfrentam e isto é o que se costuma denominar geralmente conhecer por A."
Locke foi o primeiro a pôr à luz a estreita relação do procedimento da A. com a função simbólica da linguagem. "Por meio da A. —diz— as ideias tomadas de seres particulares convertem-se em representativas de todas as da mesma espécie; e os seus nomes convertem-se em nomes gerais, aplicáveis a tudo o que exista e que convenha a tais ideias abstratas... Assim, ao advertir hoje no gesso ou na neve a mesma cor que ontem recebeu a mente ao perceber o leite, somente considera essa aparência, converte-a em representativa de todas as da sua classe e tendo-lhe dado o nome de ‘brancura’, significa por esse som a mesma qualidade onde quer que possa imaginar-se ou encontrar-se; e é assim como se formam os universais, quer sejam ideias, quer sejam os termos para expressá-las" (Essay, II, 11, § 9). Sobre a base destas observações de Locke, Berkeley chega à negação da ideia abstrata e da mesma função da abstração. Nega, noutros termos, que o homem possa abstrair a ideia da cor das cores, a ideia do homem dos homens, etc. Com efeito, não existe a ideia de um homem que não tenha algum caráter particular, como não há na realidade um homem de tal espécie. As ideias gerais não são ideias privadas de todo o caráter particular (ou seja "abstratas”), mas ideias particulares admitidas como signos de um grupo de outras ideias gerais entre elas afins. O triângulo que um geómetra tem presente para demonstrar um teorema não é um triângulo abstrato, mas um triângulo particular, isósceles por exemplo; mas como já de tal caráter particular não se faz referência no curso da demonstração, o teorema demonstrado vale para todos os triângulos indistintamente, cada um dos quais pode tomar o lugar do triângulo considerado (Princ. of Hum. Know., Intr., 16). Hume repetiu a análise negativa de Berkeley (Treatise, I, 1, 7). Tais análises não negam, no entanto, a A., mas antes a sua noção psicológica, em favor do conceito lógico-simbólico da mesma. A A. não é o ato mediante o qual o espírito pensa certas ideias separadamente de outras; é antes a função simbólica de determinadas representações particulares. Kant sublinha, não obstante, a importância da A. no sentido tradicional pondo-a ao lado da atenção como um dos atos ordinários do espírito e destacando a sua função de separar uma representação da qual se é consciente, das outras com as quais se encontra ligada na consciência. Ainda quando Kant exemplifique em forma curiosa a importância deste ato ("Muitos homens são infelizes porque não sabem abstrair." "Um solteiro poderia fazer um bom casamento em caso de saber abstrair a verruga do rosto ou a falta de um dente da sua amada" [Antr., § 3]), é claro que a totalidade do procedimento de Kant tendente a isolar (isolieren) os elementos a priori do conhecimento ou em geral da atividade humana, é um procedimento abstrativo. "Numa lógica transcendental —diz, por exemplo— nós isolamos o intelecto (como mais acima, na Estética transcendental, a sensibilidade) e destacamos de todo o nosso conhecimento somente a parte do pensamento que tem a sua origem unicamente no intelecto” (Crít. R. Pura, Div. da Lóg. trascend.).
Com Hegel assiste-se ao estranho fenómeno da sobrevalorização da A. e a desvalorização do abstrato. Hegel, com efeito, opõe-se à opinião de que abstrair signifique somente tirar para fora do conceito, para nossa vantagem subjetiva, tal ou qual nota que constitua o conceito, de outras que continuariam sendo reais e válidas fora do conceito, na realidade mesma. "O pensamento que abstrai —diz-nos— não se pode considerar como o apartar a matéria sensível, que não ficaria danificada por isto na sua realidade; é antes o superar e o reduzir esta matéria, que é simples fenómeno, ao essencial, que somente se manifesta no conceito” (Wissensch. der Logik ["A ciência da lógica"], III. Do conceito em geral). O conceito ao qual se chega pela A. é, portanto, segundo Hegel, a realidade mesma, isto é, a substância da realidade. Por outra parte, o abstrato é considerado ainda por Hegel como o que é finito, imediato, não posto em relação com o todo, não resolvido no devir da Ideia e, portanto, produto de uma perspectiva ilusória e falaz. "O abstrato é o finito, o concreto é a verdade, o objeto infinito" (Phil. der Religion [“Filosofia da religião"], II, em Werke ["Obras"], ed. Glockner, XVI, p. 226). “[O] absoluto é, por sua vez, isto enquanto algo concreto, não como abstração, mas como unidade do geral e o particular; esta consciência concreta é, em primeiro lugar, a verdade” (Geschichte der Phil., III, em Werke, ed. Glockner, XIX, p. 99; trad. esp.: Historia de la filosofía, III, México, 1955, F. C. E., p. 108). Mas é claro que Hegel entende por abstrato o que comummente se denomina concreto —as coisas, os objetos particulares, as realidades singulares oferecidas ou testemunhadas pela experiência— enquanto chama concreto ao que o uso comum e filosófico denominou sempre abstrato, ou seja, o conceito; e denomina-o concreto por constituir, para ele, a substância mesma da realidade (conforme ao seu princípio "Tudo o que é racional é real e tudo o que é real é racional”). De qualquer maneira, esta inversão do significado permitiu a boa parte da filosofia do século XIX pronunciar-se a favor do concreto e contra o abstrato, inclusive quando o “concreto” de que se tratava constituía na realidade uma simples A. filosófica. Gentile, por exemplo, falava de "uma lógica do abstrato" ou do pensamento pensado e de uma “lógica do concreto” ou do pensamento pensante (Sistema di logica, I, 1922, pp. 119 ss.). Croce falava do “concreto” do conceito como imanência nas representações singulares e do “abstrato” das noções consideradas extirpadas de particularidades (Lógica, 4ª ed., 1920, p. 28). Bergson constantemente opôs o tempo "concreto" da consciência ao tempo "abstrato" da ciência e, em geral, o procedimento da ciência, que se serve de conceitos ou símbolos, ou seja de "ideias abstratas ou gerais” ao procedimento intuitivo ou empático da filosofia (cf., por exemplo, La pensée et le mouvant, 3ª ed., 1934, p. 210). Parecidos temas polémicos foram discutidos com frequência na filosofia dos primeiros decénios do nosso século. E por certo, a polémica contra a A. tem sido eficaz como pugna contra a tendência a entificar os seus produtos, ou seja, a considerar como substâncias ou realidade entidades que não têm outra função que a de tornar possível a descrição, a classificação e a utilização de um conjunto de dados. Mas por outro lado, a mesma polémica fez esquecer por vezes a função da A. em todo o tipo ou forma de atividade humana, enquanto tal atividade não pode obrar senão pela via de seleções abstrativas. Mach insistiu acerca desta função da A. nas ciências, afirmando que é indispensável, quer seja para a observação dos fenómenos, quer seja para a descoberta ou busca dos princípios (Erkenntniss und Irrtum, cap. VIII; trad. esp.: Conocimiento y error, 1948). A este respeito, Peirce distinguiu oportunamente uma dupla função da A.: a própria de cada operação seletiva e a que dá nascimento às verdadeiras e próprias entidades abstratas, na matemática, por exemplo, "O fato mais ordinário da percepção, como por exemplo, ‘há luz' implica A. seletiva ou seleção. Mas a A. hipostática, a A. que transforma o ‘há luz’ em ‘há luz aqui’, que é o sentido que comummente outorgo à palavra A. (desde o momento que seleção indica a A. seletiva) é um modo especialíssimo do pensamento. Consiste em tomar certo aspecto de um objeto ou de vários objetos perceptíveis (logo de ter sido selecionado pelos outros aspectos de tais objetos) ou de expressá-lo em forma proposicional mediante um juízo" (Coll. Pap., 4 235; cf. 3 642; 5 304). Esta distinção, que já havia sido apontada por James (Princ. of Psychol., I, 243) e aceite por Dewey (Logic, cap. 23; trad. esp.: Lógica, México, 1950, F. C. E., pp. 513-514), não tira que a seleção e a A. hipostática sejam especificações da função seletiva geral que tradicionalmente tem sido indicada mediante a palavra “abstração”. Paul Valéry insistiu em forma poética acerca da importância da A. em toda a construção humana e, portanto, na arte: "O homem, digo-te, fabrica por A., ignorando e esquecendo boa parte das qualidades do que emprega, aplicando-se somente a condições claras e distintas que podem, no melhor dos casos, ser simultaneamente satisfeitas não por uma, mas por uma pluralidade de espécies de matérias” (Eupalinos, trad. ital., p. 134).